|
Programa
de Auto-Emprego da Sert estimula o empreendedorismo em áreas
carentes do Estado.

No bairro Anta Magra,
município de Barra do Chapéu, um grupo de mulheres se
reúne diariamente para acertar detalhes do trabalho comunitário
na horta orgânica Sempre Verde Alegria. A rotina é nova
para as oito donas-de-casa que nunca tinham trabalhado por conta própria
e contavam apenas com a colheita do tomate, cultura típica da
região, como alternativa para garantir alguma renda.
Assim como nessa
pequena comunidade rural do Vale do Ribeira, região mais pobre
do Estado, em outras áreas carentes também têm sido
criadas empresas populares, que se destacam por serem formadas por pessoas
que, até então, se viam sem alternativa de renda.
A iniciativa faz parte do Programa de Auto-Emprego (PAE), que a Secretaria
do Emprego e Relações do Trabalho (Sert) realiza há
sete anos, em parceria com órgãos governamentais e entidades
da sociedade civil. Nesse período, foram formados 1.068 empreendimentos,
em 119 municípios, capacitando 30.026 pessoas. São empresas
e cooperativas que fabricam bolsas, chinelos, fronhas, artesanato, lingerie,
roupas, bijuterias e acessórios, além de realizarem coleta
seletiva, entre outras atividades.
Mudança
de postura
O programa foi desenvolvido pelo governo estadual a partir de um projeto
original da FAO -Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e Agricultura. A metodologia
empregada divulga a idéia de que os indivíduos têm
capacidades e materiais não-utilizados que podem ser desenvolvidos
e direcionados para a geração de atividades produtivas
e rentáveis. Na prática, a iniciativa caracteriza-se pela
participação ativa das pessoas em todo o processo de aprendizado,
que envolve tarefas de organização, planejamento e realização
de um empreendimento, escolhido por elas com orientação
dos Técnicos de Desenvolvimento Econômico e Social (TDE`s),
que são os responsáveis pelo acompanhamento de todo o
processo. Eles também são qualificados e capacitados pelo
mesmo método. A comunidade é mobilizada pelas lideranças
locais, contatadas pela equipe do PAE, e participa da escolha dos cursos
que serão desenvolvidos e da divulgação, da seleção
dos instrutores especializados que o ministrarão e até
da busca dos locais onde serão realizados e da matéria-prima
a ser utilizada.
Segundo o coordenador
estadual do PAE, Homero Leonel Vieira Filho, a metodologia é
eficaz no aumento da auto-estima, fator fundamental para o sucesso do
projeto, que tem sido surpreendente. "A gente observa, freqüentemente,
que nas regiões onde temos atuado há melhoria na empregabilidade
e isso promove a mudança de postura, desperta a capacidade de
gestão e combate o desemprego sem assistencialismo", completa.
Cidadão
do Presente
Selmira Dias Galvão foi escolhida por suas sócias para
ser a coordenadora da horta Sempre Verde Alegria, que tem rendido colheita
toda semana. A produção vai para a feira-livre aos domingos,
que só existe por causa das três hortas criadas na cidade
por meio do PAE. "Antes não tinha esse tipo de plantação
por aqui, só no quintal de algumas casas", conta a nova
empresária, se referindo ao cultivo de hortaliças variadas,
já que no município o comum era a monocultura. O trabalho
com adubo orgânico também é novidade, pois ela era
acostumada a lidar com a elevada quantidade de agrotóxicos no
tomate, que causa problemas de saúde à população
local.
Embora estejam produzindo e vendendo, Selmira e suas parceiras ainda
estão em processo de qualificação. "Depois
de 45 dias de curso, começamos a aprontar o terreno e a produzir",
diz a coordenadora. O programa chegou à Barra do Chapéu
e a mais 11 municípios do Vale do Ribeira em setembro do ano
passado, com o lançamento do projeto de geração
de renda Cidadão do Presente, do qual participa ao lado do governo
federal e da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento
Social.
A união de
esforços tem como objetivo auxiliar as famílias beneficiadas
pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti),
do Governo Federal, a manter as crianças na escola (condição
do programa para conceder aos pais uma bolsa/auxílio mensal por
criança e promover a diminuição da pobreza na região).
As prefeituras de Apiaí, Barra do Chapéu, Capão
Bonito, Guapiara, Itaberá, Itaí, Itaoca, Itapeva, Itapirapuã
Paulista, Ribeira, Ribeirão Grande e Sete Barras também
firmaram termo de cooperação para a capacitação
dos representantes das 1.223 famílias comprometidas.
Descobrindo
novos sabores
Com quatro filhos inscritos, a coordenadora da horta de Anta Magra também
descobriu novos sabores com a atividade. Nunca tinha plantado nem comido
quiabo, que incorporou à alimentação da família.
"Faço refogadinho, com bastante cheiro-verde", conta.
Secundino Gonçalves Chaga também provou algumas novidades
como a tal da rúcula, por exemplo, que não achou saborosa,
mas tem vontade de plantar. Com cinco filhos no Peti, sonha com a possibilidade
de aumentar o seu ganho.
Atualmente, ele
trabalha como empregado na roça de feijão e de milho,
mas junto com outras sete pessoas está preparando um canteiro
no bairro dos Tocos para produção própria. "Eu
nunca tinha ouvido falar em estufa", afirma empolgada Julia Antonia
Pereira", envolvida no mesmo projeto de Secundino. Ela conta que
aprendeu a preparar a terra, fazer adubo orgânico e a usar a estufa.
"Achei interessante porque tudo que se planta nasce e cresce mais
rápido", diz.
Maria Siqueira Maciel, futura sócia, avisa que não falta
muito para começar a plantar. "É só limpar
a terra, fazer a cerca e iniciar. Com a enxada na mão, sua filha,
Maria Aparecida, 25 anos, demonstra que já tem prática
e que, se depender dela, a horta vai ficar pronta logo.
Artesanato
e apicultura
O município de Apiaí, vizinho a Barra do Chapéu,
é conhecido como capital do artesanato e faz parte do Parque
Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar). Abriga remanescentes
da mata atlântica preservada em toda a sua extensão, além
de mais de 250 cavernas. Mesmo com todos esses atrativos, enfrenta dificuldades
características da região na geração de
renda para seus cerca de 30 mil habitantes.
Ivone Maria da Cruz
Lima que o diga. Aos 40 anos, lida com dificuldades para o sustento
de seus seis filhos, mesmo sendo uma artesã de mão-cheia.
Filha da artista mais famosa do município, Custódia de
Jesus da Cruz, herdou da mãe, já falecida, além
do talento e do forno para a queima das peças, a dificuldade
de sobreviver da arte.
Com a chegada do PAE, virou instrutora de um grupo de mulheres que resolveu
seguir a tradição, mas de forma organizada. Fundaram,
no bairro do Encapoeirado, a empresa de artesanato Custódia de
Jesus da Cruz, na qual Ivone deposita suas últimas esperanças
de melhorar de vida com o que sabe fazer de melhor.
Ambas com 18 anos,
as irmãs Josiane Aparecida Camargo e Maíra Aparecida Camargo
coordenam o grupo de 21 mulheres, que se dividem, na maioria, entre
o trabalho na nova empresa e a lavoura de tomate. Josiane diz que quando
surgiu a oportunidade de iniciar uma atividade que pudesse gerar renda,
ela e sua irmã escolheram a arte da cerâmica, principalmente
pela facilidade de obter matéria-prima. "Está ao
nosso alcance." Carmelinda da Rosa Santos, 47 anos, é umas
das mais empolgadas. Nunca tinha trabalhado com artesanato e está
adorando a experiência. "Meu plano é ter uma renda
para sair da roça de uma vez."
Estão produzindo vasos, panelas, bonequinhas de bucha, sabonetes
e vela. Pretendem, ainda, fazer curso de bijuterias de barro, idéia
aprovada pelo grupo. Para a venda, participaram de duas feiras e o dinheiro
arrecadado está sendo destinado à construção
do barracão de trabalho (o atual é emprestado). O forno,
para a queima das peças, é o de Ivone. Tudo resolvido
democraticamente.
Assim também
acontece na empresa Mel das Flores, no bairro Conceição
do Herval, onde 18 pessoas se reuniram para produzir mel, atividade
considerada por eles como ideal para a região. "Aqui, por
ser área de preservação, é lavoura ou apicultura",
decreta Adir Alves de Oliveira.
Como já era apicultor, foi escolhido, junto com Marli Rodrigues
de Lima e João Maria Cândido, o Dico, para coordenar a
equipe. "Achei que era a nossa oportunidade de organização",
explica. O barracão, com cronogramas espalhados pelas paredes,
indica que esse objetivo já começou a ser alcançado.
Agora a meta é multiplicar a produção. Por enquanto
estão com 35 colméias ao todo, mas pretendem ao menos
25 por pessoa. "Nós temos condição e conhecimento
para isso", diz Adir. Nos planos, guardam a intenção
de adquirir maquinários para fabricarem as caixas-ninho.
"É um
trabalho lento, mas tem futuro, pois tudo o que as abelhas fazem é
aproveitado", avalia Sônia Aparecida de Barros, uma das oito
mulheres da empresa. Ela conta que, até começar a trabalhar
com apicultura, morria de medo dos insetos. "Hoje, as abelhas são
minhas aliadas", comemora. Janete Gonçalves Teles Rosa também
depende das produtoras do mel. Entrou para o grupo a fim de largar o
trabalho duro na roça. "Estou pensando no futuro."
A
metodologia do aprender fazendo
A metodologia aplicada no PAE foi criada pelo cientista social, escritor
e professor Clodomir Santos de Morais, consultor do Instituto de Apoio
Técnico aos Países do Terceiro Mundo (Iattermund), órgão
participante do Programa Nacional de Geração de Empregos
(Pronager).
Chama-se Metodologia da Capacitação Massiva e é
composta de três etapas básicas: na primeira é desenvolvido
o Laboratório Organizacional de Terreno, período de análise
da demanda da comunidade; na segunda, o Laboratório Organizacional
Dirigido, mais focado na atividade e desenvolvido para um grupo formado;
e na última etapa, os Laboratórios Organizacionais de
Empresa, realizados para fortalecer um empreendimento já existente.
As fases são
definidas como laboratórios em razão de funcionarem dentro
do princípio do aprender fazendo. Cada turma é considerada
um empreendimento e se organiza como tal desde o primeiro dia. Logo,
recebe as máquinas e equipamentos necessários para produzir
e aprende as técnicas na prática, iniciando a atividade.
A matéria-prima fornecida dá apenas para o início,
pois os participantes são orientados a vender a produção
para continuar o curso. Tudo sob acompanhamento dos TDE's. O PAE também
tem o apoio de técnicos do Banco do Povo Paulista (que orientam
os empreendedores na aquisição de financiamento) e do
Grupo de Apoio a Empreendimentos Populares (Gaep), que assessora os
empreendimentos já concretizados.
A
equipe que veste a camisa
Nilton, Cleusa, Jozi, Gilson e Cláudio chegaram ao Vale do Ribeira
em setembro com a missão de instituir o PAE. Desde então,
a dedicação é total ao objetivo, pois moram no
local do trabalho e ficam à disposição em tempo
integral.
Nilton de Oliveira
é o coordenador de campo, portanto, é o responsável
pelo acompanhamento do programa na região e pelo estabelecimento
de parcerias, enquanto os TDE's Cleusa Sgarbi, Jozi Martins, Gilson
Timóteo e Cláudio Bispo se responsabilizam pela assessoria
ao desenvolvimento dos empreendimentos nos municípios.
Em cada Projeto
Cidadão do Presente existe um TDE (ou mais), empenhado em empregar
a metodologia pela qual ele mesmo foi capacitado. Para Cleusa, que veste
uma camisa onde se lê Nós devemos ser a mudança
que queremos ver no mundo (Gandhi), cada tarefa é uma oportunidade
de exercer um pouco mais do empreendedorismo que aprendeu para si e
para ensinar. "Fizemos a camiseta no primeiro trabalho que participei",
conta, ressaltando que a frase resume bem a filosofia do programa. Ela
e Jozi assessoram os três empreendimentos formados em Apiaí
(dois de apicultura e um de artesanato).
No PAE desde 1997,
Nilton também veste a camisa: "é impressionante a
mudança que a metodologia causa nas pessoas. Ela desperta a capacidade
de gestão", afirma.
Cláudio Bispo e Gilson Gomes, atuantes em Barra do Chapéu,
consideram o trabalho no Vale do Ribeira o mais gratificante dos que
já participaram. "Aqui as pessoas são carentes de
tudo", frisa Gilson.
Fonte:
Simone de Marco - Da Agência Imprensa Oficial
|