Educação alimentar - uma tentativa de virar o jogo contra o desperdício

Quantidade de alimentos que vai parar no lixo seria suficiente para fornecer cestas básicas com valor médio de R$ 120 a 7 milhões de famílias durante um ano

Caminhão leva aulas do Cozinha Brasil em Recife (PE)Cascas, talos e outras partes de verduras e frutas que antes iam parar na lixeira estão deixando a mesa do trabalhador brasileiro mais nutritiva. É a tentativa de acabar com um paradoxo perverso: o país recordista em produtividade agrícola é um dos líderes mundiais em desperdício de comida. Estimativas da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp mostram que 32 milhões de toneladas de grãos, frutas, hortaliças e produtos de origem animal acabam no lixo durante o processo que vai da produção ao consumo final.

Para mudar este quadro, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) plantou uma semente contra o desperdício, o Cozinha Brasil - Alimentação Inteligente - um projeto desenvolvido pelo MDS em parceria com o Sesi, que leva noções de hábitos alimentares saudáveis e de aproveitamento de alimentos com receitas a baixo custo a comunidades carentes de 14 Estados e do Distrito Federal. Caminhões equipados com oficinas didáticas do Cozinha Brasil ensinam as pessoas a planejar melhor a compra dos alimentos, elaborar um cardápio equilibrado e barato, conservar, congelar e aproveitar parte da comida que é normalmente jogada no lixo.


Balanço do desperdício

A perda anual de frutas, hortaliças, grãos e outros alimentos seria suficiente para fornecer cestas básicas no valor médio de R$ 120 a 7 milhões de famílias durante um ano.

Apenas uma família de classe média brasileira desperdiça diariamente 500 gramas de alimentos, o que gera uma perda de 180 quilos anuais.

35% das hortaliças produzidas no Brasil apodrecem nas latas de lixo.

O desperdício no Brasil consome cerca de 40% da produção agrícola nacional.

Entre a produção no campo e a mesa do consumidor, as perdas de alimentos chegam a variar entre 20% e 60%.

Cerca de 60% dos alimentos não processados industrialmente acaba sendo desperdiçada. Mais da metade do lixo produzido no país é composta por restos de alimentos.

Em média, cada casa brasileira joga no lixo cerca de 20% dos alimentos que compra semanalmente, ou seja, uma estimativa de R$ 2,7 bilhões anuais.

Se em uma única refeição, 100 gramas de alimento ficar no prato, em um ano, o desperdício pode chegar a 36,5 quilos.


Motivos do desperdício

Ângela Peres, coordenadora-geral de Educação Alimentar e Nutricional do MDS, explica que o desperdício ocorre porque as famílias não sabem como guardar e conservar os alimentos e costumam desprezar cascas, folhas e talos - ricos em vitaminas, fibras e minerais. "É uma cultura do mau uso dos alimentos que está instalada e que precisa ser mudada", alerta. O aproveitamento de resíduos, como cascas de certas frutas, é uma proposta viável, segundo especialistas. O desconhecimento dos princípios nutritivos do alimento, bem como seu melhor aproveitamento, induz ao desperdício.

De acordo com Ângela Peres, o combate ao desperdício tem que começar ainda no campo, na hora do plantio e da colheita. Segundo ela, é preciso enfrentar o problema das péssimas condições das estradas, os problemas da estocagem e as perdas na comercialização. "Mas não adianta esquecer a outra ponta: o consumidor", ressalta.


Boa compra
De acordo com a nutricionista Aline Melo, da Secretaria de Segurança Alimentar do MDS, uma das dicas ministradas no projeto é a idéia de que o cuidado deve começar na hora da compra. "Boa parte das frutas e verduras pode ser encontrada em quase todos os meses do ano, mas, na época certa, da safra, elas são mais baratas e de melhor qualidade. Examinar o aspecto, a cor, o cheiro, também é importante para não comprar alimento estragado, que vai acabar sendo jogado fora. No caso dos industrializados, as pessoas precisam ficar de olho para não comprar produto vencido e descartar latas estufadas, enferrujadas, com vazamento ou amassadas", ensina.


Bom armazenamento
O consumidor também precisa ter cuidado na hora de armazenar o alimento. As bactérias adoram umidade, lixo e temperatura ambiente de 20° a 45ºC, ensina o Cozinha Brasil. Para evitar doenças e não deixar a comida estragar, a higiene no manuseio e no preparo é fundamental. Alimento pronto não deve ficar no forno, em cima do fogão, da mesa ou da pia por mais de 30 minutos. Produto que precisa de refrigeração também não pode ficar mais de 30 minutos em temperatura ambiente.


Boa refrigeração
Saber organizar os alimentos na geladeira e saber o que pode ser congelado também é essencial na briga contra o desperdício. O Cozinha Brasil traz 250 sugestões de receitas que aproveitam todas as partes de frutas, legumes e verduras e dá algumas dicas. Alimentos prontos devem ser guardados nas prateleiras de cima da geladeira; os semiprontos ou pré-preparados, nas prateleiras do meio; e os produtos crus, nas prateleiras inferiores. Quanto mais rápido o alimento for congelado e quanto mais devagar ele for descongelado, melhor será o resultado final. Verduras e legumes - incluindo talos e folhas - só podem ser congelados depois de mergulhados em água fervente e, logo em seguida, em água gelada.


Outros projetos
Essas e muitas outras orientações são repassadas não apenas por meio do Cozinha Brasil, mas de vários outros projetos desenvolvidos pelo MDS em parceria com Estados, municípios, organizações não-governamentais, empresas privadas, fundações e instituições sociais.

Ângela Peres chama atenção para o projeto Educação à Mesa, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, que capacitou mais de mil mobilizadores em educação alimentar em vários Estados brasileiros e produziu kits pedagógicos com spots de rádio, programas e chamadas de TV, além de material impresso.

Este ano, o projeto vai capacitar os gestores dos Restaurantes Populares, Bancos de Alimentos e Cozinhas Comunitárias. Mais 6 mil kits estão sendo reproduzidos e destinados aos municípios das regiões metropolitanas. Além disso, o MDS produziu 54 milhões de cartilhas e 700 mil cadernos do professor, abordando temáticas de alimentação e nutrição, com a linguagem simples e divertida dos quadrinhos. Esse material está sendo destinado a todas as escolas públicas brasileiras, para atender alunos de 1ª a 4ª séries.

No total, o MDS investiu, só em 2004, R$ 10,2 milhões em ações de educação alimentar. Mais de 12 mil profissionais foram capacitados para entrar na briga contra o desperdício e os maus hábitos alimentares. Ângela Peres enfatiza que "é um trabalho de formiguinha, mas que pode ser poderoso, porque as informações repassadas por esses projetos vão sendo multiplicadas na vizinhança, na família, na comunidade".


Bancos de alimentos evitam o desperdício
Entre as ações de educação alimentar implementadas pelo MDS, está o financiamento da instalação de mais 56 bancos de alimentos nos municípios com população acima de cem mil habitantes. Com capacidade de receber, mensalmente, uma média de 40 toneladas, resultado de doações de redes de supermercados, centrais de abastecimento, agricultores e também individuais, os bancos selecionam, classificam e embalam os alimentos doados e os distribuem gratuitamente às entidades assistenciais.

De 2003 até agora, o governo federal financiou a instalação e ampliação de 27 bancos de alimentos. Estados e municípios podem firmar convênios com o MDS para receber recursos para a instalação de bancos de alimentos. O financiamento requer contrapartida em torno de 20% do valor do projeto. O dinheiro pode ser aplicado na aquisição, ampliação ou modernização dos espaços. Também é necessário formar uma equipe composta por profissional da área de alimentação, preferencialmente nutricionista, assistente social e um coordenador, além de funcionários para trabalhar no processamento dos produtos.

É responsabilidade da equipe do banco, além da captação das doações, cadastrar e acompanhar as instituições beneficentes e avaliar a periodicidade da entrega dos alimentos. No município de Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo, os recursos recebidos do governo federal permitiram a ampliação do banco e da quantidade de produtos doados e processados. Em funcionamento desde 2002, o banco arrecada, mensalmente, 38 toneladas e atende a 1,7 mil famílias, por intermédio de 73 instituições cadastradas.

A coordenadora do programa, Cristina Assef Sallit, conta que, além de atuar na manipulação, é responsabilidade da equipe buscar os doadores. Assim, os profissionais de Embu das Artes desenvolvem um trabalho junto aos produtores agrícolas da região e à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) no sentido de sensibilizá-los quanto à importância do combate ao desperdício e das doações. "Há casos, inclusive, em que a equipe vai até a horta fazer a colheita dos hortifrutigranjeiros".

Veja receitas com talos e cascas na seção Mestre Cuca

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