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Violência
doméstica
Informação
e leis são as armas na luta pela dignidade

Fonte:
Cidadania - Fundação Bunge, Ano 4, nº 24, Abril/Maio
2005.
A
realidade é mais assustadora do que os números. |
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Lei
branda gera descrédito |
Serviços
contra a violência |
Resultados de pesquisas
realizadas nos últimos anos e o monitoramento de entidades de
defesa dos direitos femininos comprovam que a violência contra
a mulher tornou-se amplamente democrática. Hoje, não se
distingue países ricos e em desenvolvimento, cor da pele ou classe
social. Como é um mal em progressão, dissemina-se por
toda a rede de relacionamento social e profissional dos envolvidos,
afetando maridos, filhos, parentes e até mesmo a produtividade
das vítimas que trabalham fora de casa.
Os números
têm origens em fontes diversas: levantamento da Organização
Mundial da Saúde, citado durante o Fórum Violência
Doméstica realizado em São Paulo no Dia Internacional
da Mulher (8 de março), concluiu que 70% das mulheres assassinadas
com idade entre 15 e 44 anos foram mortas por homens com quem mantinham
ou haviam mantido algum tipo de relacionamento amoroso. No Brasil, o
mais recente levantamento, realizado em 2001 pela Fundação
Perseu Abramo junto a 2052 mulheres de 187 municípios, registrou
percentual de 11% de mulheres que foram espancadas ao menos uma vez
na vida. Espontaneamente, 19% admitiram ter sofrido algum tipo de violência,
percentual que saltou para 43% quando foi utilizado o método
da indução.
Entre os países
desenvolvidos, o Instituto Patrícia Galvão, entidade que
desenvolve projetos sobre direitos da mulher, reproduziu parecer do
Banco Mundial, divulgado no início da década, que estimou
em 1 bilhão de dólares canadenses os custos da violência
contra as mulheres no Canadá, incluindo polícia, sistema
de justiça criminal, aconselhamento e capacitação.
Nos Estados Unidos, esses custos variam entre US$ 5 bilhões e
US$ 10 bilhões ao ano. No âmbito profissional, a conclusão
é que um em cada cinco dias de falta ao trabalho é causado
pela violência sofrida pelas mulheres dentro de casa.
A igualdade de classes
em relação às vítimas da violência
foi constatada pela socióloga Olívia Rangel que, em 1998,
participou da criação de umas primeiras organizações
preocupadas em defender os direitos femininos, a União Brasileira
das Mulheres, UBM. Ela considera atuais as conclusões de sua
tese de mestardo, Madame também apanha, publicada em 1999 a partir
de um levantamento realizado com 311 estudantes da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (50,1% dos entrevistados
tinham renda familiar de 3 mil a 10 mil reais, considerada alta para
os padrões brasileiros). Do total, 8% dos estudantes referiram-se
a cenas de violência física entre os pais, mas 38,5% afirmaram
conviver ou ter convivido com formas de violência, inclusive a
verbal e a emocional.
Márcia Salgado,
delegada dirigente do Setor Técnico de Apoio às Delegacias
de Defesa da Mulher do Estado de São Paulo, observa que as diferenças
sociais se manifestam no momento em que os casos extrapolam a esfera
familiar: "As vítimas menos favorecidas procuram a delegacia
no primeiro momento, enquanto as mulheres de classes economicamente
mais altas contatam, em primeiro lugar, seus advogados. Eles é
que são incumbidos de comunicar o fato às delegacias da
mulher, pois o temor de expor a intimidade é maior nesse perfil
socioeconômico.
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A realidade é
mais assustadora do que os números.
Tanto a UBM quanto
as outras organizações privadas e públicas têm
trabalhado com um conceito amplo do problema, em que a violência
não se caracteriza apenas pela agressão física.
O objetivo do agressor é desestruturar a mulher, dificultar e
até destruir seu acesso a qualquer tipo de desenvolvimento -
pessoa, profissional ou social. E, nesse contexto, o cenário
pode ser mais preocupante do que se imagina, alerta a socióloga:
"O que conhecemos é a ponta do iceberg. São os casos
que chegam às Delegacias de Mulheres, às Ongs e às
Casas de Abrigo (acomodações para onde são transferidas
as vítimas nos casos de risco de vida). Mas até aí
há um longo caminho a percorrer: a vítima tem que superar
o medo e a falta de informação , entre outros obstáculos".
Quem vive o dia-a-dia
dos casos de violência atesta a veracidade desta observação:
"Todas as vítimas telefonam escondidas - de um orelhão
ou do telefone do vizinho", relata Ana Paula Gonçalves,
advogada e ouvidora da Secretaria Especial de Políticas para
as Mulheres, vinculada à Presidência da República.
O serviço, que funciona desde 2003, registrou 400 denúncias
até o final de 2004 e, além de informar o caminho jurídico
a percorrer, tem acompanhado o processo e prestado assistência
psicossocial às vítimas. Apesar de não haver estatísticas
oficiais, foi possível traçar o perfil básico das
mulheres atendidas: "Há o marido autoritário e a
mulher dependente financeiramente, que não consegue se desvincular
tão facilmente daquela estrutura", resume Ana Paula.
A ouvidoria espera
que o serviço ganhe impulso em 2005 a partir de dois melhoramentos
previstos: a realização de um levantamento estatístico
que permitirá mapear cientificamente o perfil das vítimas
e direcionar ações do governo federal, e a entrada em
funcionamento de um serviço 0800, que deverá estimular
as ligações devido à gratuidade do serviço.
Aparecida Maria
de Almeida, presidente do Conselho Estadual da Condição
Feminina em São Paulo, é mais uma especialista que considera
o atual aparato jurídico insuficiente para defender as mulheres.
"À violência física e moral somam-se à
social e à econômica, pois, nos casos em que a renda é
insuficiente, não há com a vítima sair de casa.
E os abrigos não deixam de ser outra violência, pois a
mulher é isolada e perde até o vínculo com o trabalho."Ela
vê outra deficiência na capacitação dos profissionais
envolvidos no primeiro atendimento às vítimas: "Eles
precisam orientar as mulheres sobre o fato de que os casos de agressão
não são assunto privado, coisa de casal, como se dizia.
Devem analisar as seqüelas e informar aos órgãos
competentes. A violência diz respeito a toda a sociedade e deve
ser denucniada".
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Lei
branda gera descrédito
No Estado
de São Paulo, A Secretaria de Segurança Pública
registrou um pequeno decréscimo nos casos de lesões corporais
e ameaças morais a mulheres, de 2003 para 2004. Foram 87.206
casos de lesões corporais em 2003 contra 87.011 no ano passado.
As ameaças morais totalizaram 87.444 em 2003, diminuindo para
85.129 casos. A sociedade está mais consciente? Não necessariamente,
na opinião da delegada Márcia Salgado. Ela afirma: "A
lei atual acaba gerando descrédito e, muitas vezes, a mulher
não se preocupa em dencunciar ou o crime não é
apurado nem incluído nas estatísticas. Pode ser essa,
portanto, a razão da redução de casos constatada
nos levantamentos oficiais". Ela não é a favor da
prisão em todas as situações, "mas é
o caso de se pensar em penas de caráter educativo para que o
agressor reflita sobre seu ato".
Das 365 Delegacias
de Defesa da Mulher existentes no país, 125 funcionam no Estado
de São Paulo e destas, 12 estão na região da Grande
São Paulo. Até 2002, atuavam apenas como Polícia
Judiciária, tendo como função a apuração
dos crimes denunciados. A complexidade tem levado as delegacias a providenciarem
assistência psicológica às vítimas e ao agressor,
que é convidado a comparecer a reuniões de grupos coordenadas
por psicólogos. Na 1ª Delegacia, localizada no centro da
capital paulista, há até uma brinquedoteca preparada para
distrair os filhos pequenos das vítimas no decorrer do processo.
Punição
aos agressores, atuação permanente de organizações
comprometidas com os direitos da mulher, entidades sociais atuantes
e ampliação dos canais de comunicação para
atingir todas as camadas da população. Estes são
os elementos básicos defendidos por grande parte dos especialistas
no sentido de reduzir a violência doméstica no Brasil.
"Em paralelo, é preciso educar as novas gerações
- dentro das famílias e na escola. Só assim evitaremos
a reprodução de comportamentos que levem à violência
contra a mulher" completa Maria Sanematsu, do Instituto Patrícia
Galvão. "Mas é imprescindível que o estado
participe dessa luta com o desenvolvimento de políticas públicas,
porque sem apoio institucional nenhuma estrutura tem chance de se consolidar,
defende Olívia Rangel.
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Serviços
contra a violência
Conselho Estadual da Condição Feminina (São
Paulo)
(11) 221.6374
Delegacia
Dirigente de Defesa da Mulher no Estado de São Paulo
(11) 3227.6344
Instituto
Patrícia Galvão
(11) 3266.5434
Ouvidoria
da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres
(61) 2104.9391
Pró-Mulher,
Família e Cidadania
(11) 3812.4888
União
Brasileira das Mulheres
(11) 3101.8833
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