Engajamento na causa da vida


Antônio Carlos Fernandes*

Enquanto ainda se fomenta a guerra em várias regiões do Planeta e persistem graves problemas de desnutrição, violência, saúde e descaso com o social, há numerosas pessoas de boa vontade, voluntários, profissionais da saúde, cientistas e instituições dedicadas à defesa e valorização da vida. Tal postura é muito importante num Brasil onde, segundo o IBGE, vivem 24,6 milhões de pessoas portadoras de algum tipo de deficiência. Assim, é fundamental reconhecer e apoiar o trabalho dedicado ao seu tratamento, inclusão social e qualidade de vida.

Em 11 de outubro, comemorou-se o Dia do Deficiente Físico, alusivo a cerca de nove milhões de brasileiros. A data foiexcelente oportunidade para se refletir sobre a importância da prevenção e o caráter essencial da inclusão crescente dessas pessoas nas prerrogativas da cidadania. A AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), atuando há 55 anos, é referência nacional e internacional no tratamento de portadores de deficiência física. Em 2004, a entidade, que mantém amplo serviço de assistência médica, pedagógica e social, realizou 1.060.019 atendimentos, fabricou 54 mil aparelhos ortopédicos, realizou 5,8 mil cirurgias e 119 mil consultas. Noventa e seis por cento dos pacientes nada pagam pelo tratamento.

Com base em sua experiência e trabalho científico, a AACD faz alerta um muito especial quanto à necessidade de prevenção da deficiência física. Neste sentido, deve ser citada a luta vitoriosa da sociedade brasileira, desencadeada pela entidade, em defesa da adição de ácido fólico às farinhas, essencial à prevenção da mielomeningocele, doença mais grave do que a erradicada paralisia infantil. A medida, defendida no plano médico e em intensa mobilização cívica, é hoje uma realidade em nosso país, estabelecida em lei. O exemplo evidencia a importância das políticas públicas no campo da saúde e da articulação entre Estado e iniciativa privada.

Atitude semelhante é imperiosa no sentido de reduzir os acidentes traumáticos, causas percentualmente expressivas de deficiências físicas. Explica-se: pesquisa da Clínica de Lesão Medular da AACD aponta que 43,5% de seus pacientes sofreram lesões medulares traumáticas em razão de agressões por armas de fogo. O levantamento também mostra que, deste universo, 83,5% dos pacientes são do sexo masculino e 68,3% correspondem à paraplegia. Dentre as causas traumáticas para as lesões, em segundo lugar, estão os acidentes automobilísticos (30,5%); em terceiro, a queda de altura (13%); e em quarto, o mergulho em águas rasas (6,8%).

Cerca de 81,9% dos lesados medulares (paraplégicos e tetraplégicos) atendidos na AACD foram vítimas de algum tipo de acidente (trauma). O restante corresponde às lesões não-traumáticas, provocadas por algum tipo de doença. No universo pesquisado, 62,7% vivem em São Paulo e Grande São Paulo, 31,6% no interior paulista e o restante em outros estados.

Não podemos nos resignar diante de tais números, como se fossem eles desígnios do destino. O Brasil que legaremos às próximas gerações será exatamente a nação que tivermos a capacidade de edificar. Devemos trabalhar muito pela saúde, harmonia social, redução da violência e de outras causas que atentam contra a sanidade física e psicológica das pessoas. Nesta luta, os desafios são árduos, mas têm de ser encarados com determinação, coragem e competência pela sociedade. O engajamento de todos na causa da vida vale a pena!

*Antônio Carlos Fernandes, médico, é diretor clínico da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente).

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