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Poupatempo
de São Bernardo promove oficina de bordado coletivo
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| Foto de Edmilson
G. - Um dos painéis coletivos mostrados na exposição
Entre Linhas e Cores |
Enquanto os funcionários
do Poupatempo São Bernardo desatavam os nós burocráticos
da população local, outros nós eram estrategicamente
amarrados. Conduzida pela socióloga Valdirene Ferreira Gomes,
a oficina de bordado integrativo teceu paisagens, flores, peixes, casas,
rostos. As mulheres, na maioria atuantes em suas comunidades, alegres
e concentradas, viveram a nova experiência do bordar, ainda que
já tivessem a habilidade.
O bordado integrativo
é realizado coletivamente, mas tem início na experiência
individual. Cada desenho expressa, nas entrelinhas, sonhos, desejos,
esperanças, angústias, decepções e a relação
da pessoa com o mundo. Quando as partes se somam formando um grande
e único painel, passam a mostrar, também, o conteúdo
social e cultural do universo de que fazem parte.
Ao criar a oficina,
a socióloga uniu sua experiência acadêmica da pós-graduação
em arte integrativa, que coloca no processo artístico as questões
individuais, a práticas milenares da cultura indiana, em que
as mulheres, tradicionalmente, contam as histórias das suas vidas
nos bordados que fazem. "É um momento precioso para vítimas
da opressão e da violência, excluídas de uma vida
digna e sem perspectiva. Essas pessoas têm a rara oportunidade
de pôr para fora as suas angústias e os seus anseios. Resgatam
a sua história pessoal, suas lembranças e seus sentimentos.
Por isso, esse trabalho é voltado especialmente para comunidades
carentes."
Auto-estima e
sociabilização entrelaçadas
Ao fazer um bordado coletivo, é preciso respeitar o espaço
do outro, e isso é um treino de sociabilização.
"Nas relações sociais, é preciso saber quem
é você e quem é o outro, e o bordado mostra a posição
que cada um ocupa no trabalho coletivo, até onde pode ir, onde
o outro está invadindo. É o aprender a se colocar",
analisa Valdirene. "Eu estava trabalhando com as integrantes da
União de Mulheres - ONG que dá assistência psicológica
a mulheres vítimas de violência - no acabamento de um grande
painel bordado. A mim coube fazer um ninho de passarinhos. Escolhi várias
cores para bordar os ovos. Cada vez que ia separar a linha, notava que
uma colega bordadeira a tirava de perto. Fez isso várias vezes,
até que perguntei a razão de tal atitude. 'Porque não
existe ovo colorido', ela respondeu. 'Mas os meus são', retruquei.
Foi um momento de enfrentamento sutil, um exercício para a vida
de nós todas", recorda a socióloga.
Outras experiências
O mesmo acontece com os sentimentos, que afloram à medida que
as linhas coloridas formam, ponto a ponto, a imagem escolhida. Surgem
casas, símbolos religiosos, sorrisos ou lágrimas, enfim,
parte da história individual de cada pessoa. A socióloga
conta que, durante oficina realizada no Poupatempo Santo Amaro, uma
mãe, acompanhada de duas filhas adotivas, ambas HIV positivas,
escolheu uma frase para bordar: Só o amor supera tudo. Ao finalizá-la,
chorou muito e acabou por emocionar todo o grupo. No grupo Terceira
Idade Amor Perfeito, dona Maria da Cruz, uma senhora de 77 anos, concluiu
a sua vivência feliz com uma frase curta: Nunca é tarde
para aprender. Em outra oficina, uma mulher havia estranhamente dividido
o seu trabalho em duas partes: uma com a imagem de uma casa, outra com
a de sete crianças. Soube-se depois que tinha perdido a casa
em um incêndio. No final do bordado coletivo, alguns meses depois,
ela juntou os panos com um bordado. Havia, finalmente, conquistado outra
moradia", relata a socióloga.
Agentes multiplicadores
Passar adiante conhecimento e experiências pelas mãos de
representantes de comunidades e movimentos populares é o grande
objetivo de Valdirene, que já formou 25 grupos de multiplicadores
em um ano e meio.
Segundo Valdirene,
qualquer pessoa pode participar da oficina. E isso torna muito simples
ser um multiplicador. Basta querer. Muitas se surpreendem com o resultado,
mal acreditam que foram capazes de produzir com as próprias mãos
um trabalho tão bonito e colorido, e se orgulham da sua obra.
Ela ensina o ponto alinhavo, básico, que é o ponto indiano.
Depois, todas aprendem a trabalhar com ponto cheio, amarração,
rococó, ponto corrente. E aquelas que conhecem outras técnicas
de bordado ensinam para o resto do grupo.
Sentimentos bordados
em exposição
A exposição Entre linhas e cores: tecendo a nossa história
- canto do povo de um lugar é resultado do trabalho das agentes
multiplicadoras e conta com a participação e o esforço
de 140 pessoas, todas integrantes de movimentos populares. Reunindo
atualmente trabalhos feitos por nove entidades (Movimento de Moradia
do Centro, União de Mulheres de São Paulo, Associação
Beneficente e Cultural Pena Branca, Centro Social Marista São
Marcelino Champagnat, Associação Grupo de Mães
Novo Amanhecer, Casa Abrigo Campo Limpo, Centro de Convivência
e Cooperativa Parque Raul Seixas, Grupo Terceira Idade Amor Perfeito,
Morada Norte), a exposição já percorreu os postos
do Poupatempo em Itaquera, Santo Amaro e São Bernardo.
A exposição
vai até o dia 2 de agosto, de segunda a sexta-feira, das
7 às 19 horas, e aos sábados, das 7 às 13 horas.
O Poupatempo São Bernardo do Campo fica na Rua Nicolau Filizola,100.
Da
Agência Imprensa Oficial
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