Dança, Cultura e Preconceito

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Ao analisarmos nossas heranças culturais, percebemos que os costumes africanos influenciaram enormemente a formação de nossa identidade. Principalmente no que diz respeito à música e dança.

A professora de Danças Brasileiras e Dança Afro Mildred Sotero conversou conosco a respeito destas influências. Licenciada em Educação Física e com um longo currículo que engloba participações em grupos como Bata-kotô e o Abassaí, Mildred ensina não só para grupos fechados, mas também em escolas que colocaram as danças brasileiras em sua grade curricular. Além disso, conversamos sobre preconceito, estética, família e tantas outras coisas que ajudaram a moldar o que ela chama de "jeito afro-brasileiro de viver".

Alguma vez você sentiu preconceito por ser negra? Agora, ou quando criança?
Estudei em colégio da Polícia Militar, porque meu pai era militar e eu tinha bolsa na escola. Lá havia desde filhos de soldados a filhos de major, gente de todas as raças, era uma pequena mostra de mundo mesmo. Minha turma de escola era de negros, então eu ficava protegida. Mas eu me lembro de coisas bem ruins com pessoas fora do grupo. Na hora de alguma discussão, lembro de me chamarem de neguinha fedida, pretinha, e o fato de isto me incomodar já era um sinal que eu não tinha uma auto estima boa.

Então você está propondo que o preconceito não afeta alguém com uma auto-estima boa, que se reconhece como uma pessoa inteira, cidadã?
Isto mesmo. Xingar um negro de negro não pode ser ofensa, porque ele o é de fato.

E como foi isto na sua família?
Minha família é negra. Quando comecei a namorar meu marido, que é branco, na família apareceram uns comentários orgulhosos, como se eu estivesse subindo um degrau na vida. Já vi isto acontecer outras vezes, com outras pessoas, o que me leva a concluir que, embora não seja consciente, muitos negros se sentem inferiores aos brancos. O que me chama atenção é o quanto a família negra, no Brasil, não trabalha isto com a criança, até por achar que aqui o preconceito é light. Se comparado com a África, com os EUA, é light mesmo, mas você não dá vitamina para seu filho crescer? Então dê a cultura para ele se valorizar.

E como eram os hábitos de vocês, a comida, as roupas?
Comíamos comida de brasileiro, arroz, feijão, frango ensopado, macarrão, batata frita. Só fui comer acarajé na Bahia, depois da faculdade.

Só comecei a usar roupas coloridas, motivos afros, panos enrolados no corpo, por influência do meu marido. Ele é muito ligado na cultura negra, me incentivou a fazer dança afro, a trançar o cabelo. Ele foi meu guru nesta minha descoberta, talvez até inconscientemente eu tenha me sentido respaldada por ele para assumir meu lado afro e ver se gostava. E eu gostei. Minha família com certeza percebeu, mas não reconheceu com tanta força a mudança. Sei que hoje não conseguem mais me imaginar sem tranças. Houve um reforço positivo por parte deles.

Como você vê o Brasil?
Não acho que seja um país negro. Acho que a graça do país é a mistura, é o quanto cada raça que mora aqui contribui com sua cultura. E eu vejo a cultura negra muito forte, muito expressiva. Além da feijoada, do samba, do percussionismo, há coisas pequenas no interior dos estados, que a gente, na capital, não conhece, mas que são muito fortes.

Como o Jongo, por exemplo. É uma manifestação sócio cultural do Sudeste, que veio dos escravos africanos. São versos falados, que contém enigmas com poderes mágicos de cura ou de destruição e cuja resposta nunca é dada. Tais enigmas são chamados de pontos e há alguns que não são de conhecimento de todos. É como se fosse um vudu pela palavra. Há a dança também, que acompanha estas estrofes. Um exemplo de comunidade de jongueiros são os Arturos, em Guaratinguetá. O Jongo é o fio condutor da vida destas pessoas, é uma tradição muito bem preservada, quase como o candomblé puro. É cotidiano deles.

Você acha que os negros conseguiram preservar sua cultura, como fizeram japoneses, italianos, alemães, etc?
Acho que não da mesma forma. No Brasil se criou um estilo afro-brasileiro de viver. Eu passeio por várias famílias não negras, minha família é micigenada, e vejo que o jeito do negro viver é muito diferente do branco. Por exemplo, para o meu marido incomoda muito a casa estar sempre cheia de gente, a todo momento virem pessoas e passarem o dia, acordarem e dormirem em casa, isto não é uma coisa dele, enquanto que para mim isto é natural, sempre aconteceu; é uma característica bem negra.

Acho que houve realmente uma mistura de culturas. Veja o maracatu, que representa uma festa de coroação africana, mas tem influência portuguesa na vestimenta. Foi uma penetração da cultura branca na cultura africana.

E sobre a religião?
Sou católica e minha família evangélica. Eu tenho curiosidade, gosto de estudar os deuses africanos, gosto de dançar a dança afro, cujos movimentos vieram dos movimentos dos orixás, mas não sigo como religião. Gosto muito enquanto cultura, como objeto de estudo, como objeto de trabalho, objeto de afirmação da auto-estima de um povo, mas sou muito mais Nossa Senhora do que Oxum para me guiar.

Isto não poderia ser visto como uma negação a raça?
Eu não acho que alisar o cabelo ou não gostar de Umbanda seja negar a raça. Raça não se nega, está no sangue e na cara. Eu posso jurar para você que eu sou branca e você nunca vai acreditar em mim, está na minha cor.

Você acha que a cultura branca foi invasiva na história cultural dos negros?
No princípio foi muito invasivo, mas depois não. Talvez se a religião não tivesse sido imposta, todos os negros hoje seriam da Umbanda ou do Candomblé. Do Candomblé, porque a própria Umbanda é um sincretismo, é miscigenação. Acho que só se pode pensar em invasão se pensarmos em educação. Um negro pode ser umbandista, pode ser católico, pode ser budista. Acredito mais neste livre arbítrio, no que cada pessoa pode querer seguir sem negar sua raça. Triste de quem nega a raça, porque quem nega não é feliz.

Mesmo a questão estética, quando adolescente eu achava maravilhosos os cabelos lisos e compridos, da mesma forma que alguém mais cheinho inveja o corpo de uma modelo magra. Hoje acho que não existem raças bonitas, existem pessoas bonitas, a pessoa fica muito bonita quando se gosta. Se uma negra se gosta, pode fazer plástica no nariz, alisar o cabelo, tingir de loiro e vai continuar bonita. Uma negra de trança, como eu, ou uma negra de cabelo alisado, como minha irmã, ambas tem sua beleza. Mas nosso padrão de beleza é europeu, inegavelmente. No Japão acontece isto, as modelos lá são padrão europeu, loiras, olhos claros, e isto está vendendo roupas lá. Este modelo é mundial, não atinge só os negros.

Como é no seu trabalho, com seus colegas, como eles lhe tratam?
Eu acredito que exista o preconceito sim, sei que acontece a desvantagem dos negros, mas acho que isto não acontece da mesma forma em todos os segmentos. Quando é para lidar com vendas, estética ou cargos executivos, acredito que isto aconteça com facilidade. Já no meu caso não consigo me lembrar de algum emprego que eu possa ter perdido por causa da minha raça.

Já trabalhei em escolas municipais, no grande ABC, escolas de periferia, e atualmente trabalho em escolas particulares da Zona Oeste, de classe A e B. Em todas as escolas que eu trabalhei, sempre aconteceu de, no quadro de professores, eu ser a única ou uma das únicas negras. Todas as escolas que trabalho são assim, diretoria sem negros, entre os professores, pouquíssimos negros, entre os alunos idem e a classe operacional, da faxineira ao Bedel, quase todos negros.

Como sua relação com todos eles?
Na direção e no corpo docente das escolas onde trabalhei nunca senti nenhuma discriminação. Entre os alunos nada direto ou agressivo. Dou aula da pré-escola ao colegial e sempre procuro colocar o fato de que ensino a cultura brasileira. Como neste ramo da dança há uma influência afro muito grande, o curso acaba sendo um pouco afro. Eu pensava que o fato de ser negra fosse muito natural, mas uma vez eu estava dando aula para uma classe com quem sempre me dei especialmente bem e fiz uma brincadeira: apaguei as luzes da sala, diminuí o volume do som e pedi que eles seguissem os meus movimentos, sem que eu explicasse. E falei "isto se vocês me enxergarem, senão eu posso sorrir". Comecei a rir e ri sozinha, porque todo mundo ficou muito sem graça, quase pude ouvir todos engolindo seco. Minha vontade foi de dizer "gente, eu fiz a piada, podem rir, mesmo que um de vocês tivesse feito a piada, eu sou negra mesmo, nunca me sentiria ofendida porque, no escuro é mesmo difícil me ver, isto é natural, é minha cor".
Tocar no assunto da minha raça, só em relação ao meu cabelo, então as alunas me perguntam se eu lavo normalmente, quanto tempo dura a trança. Perguntas normais de quem usa um penteado diferente. Mas lembro de outras coisas engraçadas. Eu dava aula de natação para crianças com três anos de idade. Ia para o vestiário, me trocava com eles e ajudava todos a tomarem banho. Um dia tirei o maiô e uma menininha veio para mim, passou o dedinho na minha barriga e olhou o dedinho, como para conferir se a tinta não saía. Isto nunca me incomodou, acho que é uma curiosidade pela diferença.
Entre a classe operacional das escolas há pessoas que me aceitam super bem, que eu converso, cumprimento. Há outra parcela dessa classe operacional que não olha na minha cara, porque não suporta o fato de um negro estar em melhor posição sócio-econômica do que eles. Esta espécie de inveja eles não têm do branco porque acham natural que o branco seja o patrão. Mas o negro ser empregado de outro negro parece que é humilhante, é difícil.
Há coisas que todos nós temos como preconceitos no nosso mais profundo inconsciente. As vezes estou lá no meio do Jardim Europa, abre o portão de uma mansão daquelas e sai um negro dirigindo uma Mercedes. Sendo muito sincera, meu primeiro pensamento é que ele é o motorista. Não penso, logo de cara, que ele pode ser o dono da casa, que é um empresário, um médico famoso ou algo assim. O que é isso? É um racismo de educação.
Lembro que uma vez eu fui a Salvador com meu marido. Todo mundo pensava que ele era gringo e eu era prostituta e estava fazendo programa. Estávamos andando no Pelourinho , de mão dadas, quando algumas pessoas, todas negras, passaram e falaram "ó o gringo, só levando embora nossas pretinhas". E se sou casada é porque o gringo se apaixonou por mim no programa e me tirou da vida. Tem que passar pela nossa cabeça todas as possibilidades. Mas tem gente que pára nesta primeira idéia e nem leva em conta que pode estar errada.

E como você trabalha esta questão com seu filho?
A gente, desde pequenininho, faz questão de dizer para ele que ele é uma mistura de duas raças. Eu sou bem negra, meu marido é bem branco e meu filho é mulato; a cara do pai, com meu nariz. Ele convive com a atenção que chamamos, eu e meu marido, dependendo do lugar aonde vamos; por exemplo, quando andamos de mãos dadas em Ubatuba, todo mundo olha. Se fazemos isto na Praia Grande, ninguém repara. Disso eu tiro que o pobre se dá mais direito à miscigenação. O rico não.

Você acha que esta questão do poder aquisitivo, da posição social, tem a ver com a herança de opressão?
Sim. Acho que é o resultado de uma devastação econômica, junto a tantos outros fatores. Nas escolas em que leciono há muito mais alunos trabalhando com arte, com música. Uma das conclusões que tiro é que a classe econômica à qual eles pertencem permite que eles arrisquem, proporciona o direito ao arriscar-se. Isto um aluno de periferia não pode fazer. Ele não tem tempo para se arriscar porque ele tem de pagar as próprias contas desde cedo. Nessa classe menos favorecida, na periferia, estão muitos negros.

E por que a Dança Afro? Como você começou?
Como já disse, meu marido foi o grande incentivador. Eu fui atleta, por uma aptidão minha mesmo. Sempre fui alta e magra, meu pai era atleta, sempre gostei de esportes, sempre tive muita agilidade. Entrei na faculdade de Educação Física porque eu queria ser técnica de atletismo. Através do meu marido eu comecei a me ligar na dança. Uma vez ele viu um professor dando aula no SESC e me incentivou a ir dar uma olhada. Fui e gostei. A percussão é sedutora. Talvez porque seja o som natural do corpo (batimentos cardíacos) que você escuta desde sempre. A batida do tambor é universal. Comecei a me envolver com afro aeróbica, depois fui para o afro puro e entrei no Bata-kotô, também por indicação do meu marido. Aí eu fui trabalhar na Prefeitura de Santo André e precisaram de uma pessoa para dar aula de Lambada, na época o ritmo da moda. Fui dar aula para terceira idade em um centro comunitário. Gostei e não parei mais.

E os alunos se interessam pela história da dança?
Atualmente trabalho com danças brasileiras e sempre falo da cultura. Este interesse pela cultura varia conforme a faixa etária. Os adultos consideram imprescindível. As crianças não chegam com esta curiosidade, mas as informações são bem aceitas. Sempre contextualizo a dança, falo de onde veio, como é, por que nasceu, qual era a realidade histórica, porque eu acredito que, além de ser uma questão de valorização da cultura, negra ou não, o movimento consciente é muito mais verdadeiro do que aquele feito por si só. Por exemplo, se você souber que o movimento precisa ser ágil, rápido mas não pode parecer luta, tem de ser musical, tem de ser artístico, tem de ser malandreado, por que era escondido, o seu movimento fica muito mais significativo para você do que se eu ensiná-lo tecnicamente apenas. Isto na dança é imprescindível. Por mas que um movimento já exista, você tem de ser co-autor dele, por mais que ele seja secular, tem de ter seu traço.

Saiba mais sobre as danças brasileiras

Críticas e sugestões podem ser enviadas para mildas@bol.com.br

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