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A
cultura negra e o preconceito
Ao decidirmos fazer esta série de matérias sobre a cultura negra no Brasil, não pensávamos em enfocar a questão do preconceito racial; tínhamos a idéia de falar da cultura negra como já falamos e ainda falaremos de inúmeros outros povos que contribuíram para fazer do Brasil esse mosaico de raças. Mesmo sem intenção de falar disto, a realidade se impôs e logo nas primeiras entrevistas percebemos que a cultura africana daqui é intrinsecamente ligada à escravidão e ao preconceito; estes elementos fazem parte da história do povo, assim como o colorido das roupas e da música, o sabor picante dos pratos e tantas outras coisas às quais nos acostumamos tanto que nem paramos para pensar de onde vêm. Portanto, não seria possível falar da cultura sem falar do preconceito Durante três séculos o trabalho escravo foi explorado no Brasil, até que a Lei Áurea foi assinada, abolindo a escravidão. Mesmo assim, o fim da escravatura foi uma idéia que demorou mais de um século para amadurecer e foi este um dos mais importantes períodos para a consolidação da cultura negra no Brasil. Nessa fase surgiram os clubes negros, os jornais que pregavam a liberdade, os partidos abolicionistas, os intelectuais, os políticos e os poetas. Hoje, dono da maior população negra depois da Nigéria, com mais da metade dos habitantes negros, o Brasil conserva os costumes, as crenças, as maneiras e o modo de vida da raça negra, que acabaram originando a chamada cultura afro-brasileira. Na nossa dança, na religião, na música, na comida, no vestuário e na gíria, nota-se uma grande influência da cultura africana que hoje é mais do que nunca preservada, valorizada e praticada.
Você
já sentiu algum tipo de discriminação por ser
negra, mesmo depois de famosa? De
uns tempo para cá, tem havido uma valorização
do negro na mídia. Pela primeira vez começaram a surgir,
por exemplo, revistas e produtos de beleza específicos para
pessoas negras. Você acha que essa valorização
reflete uma mudança real na sociedade? Quando questiono produtores e diretores sobre isto, eles me respondem que a TV e o cinema reproduzem a realidade do Brasil, que os negros, aqui, tem um poder aquisitivo menor, que são em geral de classes sociais mais baixas, trabalham como faxineiras, empregados domésticos, serviçais, enfim, que nem chegam às universidades. Me surpreende muito isto porque tem muito negro engenheiro, arquiteto, médico. Existe classe média negra, embora não seja a maioria, só que a mídia não mostra isso. Aí fico pensando que o Brasil vende tanta novela no exterior. Será que ninguém lá fora perguntou que Brasil é este, que só tem brancos? Mesmo minha novela (Porto dos Milagres), se passa na Bahia, onde a população é predominantemente negra, e somos só seis negros no elenco. Temos, no CIDAN (Centro de Documentação e Informação do Artista Negro), cadastrados hoje 380 atores negros, do RJ, SP e Bahia. E cadê esse pessoal? Você não vê por aí. Acho que para virar este jogo precisamos começar a produzir e dirigir nossas próprias peças, e não ficar esperando os brancos abrirem portas. Se fizermos bem feito, isto dá certo. Não estou falando de usarmos um elenco completamente negro, mas com maioria de atores negros. Não se trata de privilegiar estes atores, mas de criar oportunidades que atualmente não existem.Acho também
que estas conquistas podem ajudar outras classes menos favorecidas
a andarem mais em direção à defesa de seus direitos.
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