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Érico
Veríssimo - o contador de histórias Por Márcia Busanello
Érico Lopes
Veríssimo nasceu em Cruz Alta, cidadezinha mais ou menos no meio
do Estado do Rio Grande do Sul, em 17/12/1905. Ano passado ele faria,
portanto, 100 anos. Filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca
e Abegahy Lopes Veríssimo, sempre foi apaixonado por leitura. No
início da adolescência, lia compulsivamente autores clássicos,
tanto nacionais quanto estrangeiros. Com a separação dos
pais, aos 17 anos, Érico acaba tendo de trabalhar como balconista
do armazém de um tio, o que não o afasta dos livros. Ao
contrário, ele não só continua lendo como começa
a traduzir trechos de escritores renomados ingleses e franceses e a escrever
seus próprios textos. Com a centelha criativa dentro de si, o balcão
transformou-se, para ele, em posto de observação do mundo:
"O balcão
me punha em contato com gente de toda espécie: operários,
soldados, empregados do comércio, funcionários públicos,
caixeiros- viajantes, pequenos burgueses, estancieiros, trabalhadores
do campo, caudilhos e vagabundos... Era uma parada singular. Estávamos
ainda no tempo dos coronéis truculentos, da violência e do
banditismo. Vi cadáveres cobertos de geada estendidos na lama sangrenta
de minha rua. Ouvi histórias de degolamentos e crueldades sem nome.
Assisti a espetáculos de degradação. Conheci homens
que se sujeitavam às atitudes mais abjetas para atingirem os seus
objetivos de lucro, mando ou mera vaidade, ou então para conseguirem
simplesmente o pão de cada dia.E comecei a compreender que a vida
é muito diferente dos nossos sonhos e do que nos prometem as novelas
românticas." Muda de emprego e, incentivado por um tio materno, envereda pela leitura de nomes como Nietzche, em seguida, Oscar Wilde, Anatole France, Katherine Mansfield e outros, que sedimentam no jovem Érico os conhecimentos sobre a literatura mundial. Com cerca de 24 anos publica seu primeiro texto num periódico de sua cidade. Trata-se de Chico: um conto de Natal. Neste período, Érico era dono de uma farmácia. Seu sócio envia ao editor da Revista do Globo outros contos, que acabam publicados, o que também acontece com A lâmpada mágica, conto enviado pelo próprio escritor ao jornal Correio do Povo. Ele começa, então, a ganhar alguma notoriedade. Falindo a farmácia, muda-se para Porto Alegre e acaba trabalhando como secretário de redação, depois como diretor da Revista do Globo. Publica, então, em 1932, aquela que é considerada sua obra de estréia - Fantoches - uma coletânea de contos e peças de teatro. Érico já era, nessa época, casado com Mafalda Halfen Volpe, com quem teve dois filhos, Clarissa e Luis Fernando. Aliás, Clarissa também é o nome de seu primeiro romance, publicado em 1933. Depois de Clarissa, o escritor começou a acumular prêmios: em 1934 ganhou o Prêmio Machado de Assis, da Cia. Editora Nacional, com o romance Música ao Longe. Em 1935, o Prêmio Fundação Graça Aranha, com Caminhos Cruzados. Em 1938, Olhai os Lírios do Campo o torna um escritor popular. Em 1954, o Prêmio Machado de Assis lhe é concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra e, em 1965 o Prêmio Jabuti, na categoria Romance, pela obra O senhor embaixador. Em meio a tanta produção literária, ainda cria, na década de 30, um programa de auditório para crianças na Rádio Farroupilha, intitulado Clube dos três porquinhos. Mais tarde ele próprio encerra o programa por não querer submeter seus textos à censura prévia da ditadura Vargas. Desse programa surge a idéia de algumas das obras infantis do escritor, tais como Os três porquinhos pobres, Rosa Maria no castelo encantado e O urso com música na barriga, além de As aventuras de Tibicuera, uma versão didática da história brasileira, pontuada com doses de ficção. Em 1940, sai Saga e, logo depois, Gato preto em campo de neve, obra na qual ele coloca suas impressões sobre os Estados Unidos, onde esteve no ano de 1941, proferindo conferências. Em 1942, sai As mãos de meu filho, pela Editora Meridiano, uma subsidiária da Globo, destinada a lançar obras que poderiam ser consideradas transgressoras pelo governo, e, no ano seguinte, O resto é silêncio, obra muito criticada principalmente pela igreja local. Temendo que a ditadura Vargas pudesse voltar-se contra sua família, Érico vai lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, mudando-se, então, para os Estados Unidos, onde fica por um algum tempo. Retorna ao Brasil em 1945 e publica A volta do gato preto, sobre sua estada em terras americanas. Sempre muito empenhado em divulgar a literatura e a cultura brasileira no exterior, o escritor acaba assumindo, em 1953, a direção do Departamento de Assuntos Culturais da OEA (Organização dos Estados Americanos), cargo que exerceu por três anos. Seu grande romance, O tempo e o vento, ele começa a escrever em 1947. O que deveria ser um único volume transformou-se em três (O Continente, O Retrato e O Arquipélago), nos quais é contada a saga da família Terra-Cambará, tendo como pano de fundo a história do Rio Grande do Sul desde os colonos pioneiros até o fim da Era Vargas. O primeiro volume foi publicado em 1949 e o último, em 1962. Deles, o mais famoso, sem dúvida, é o primeiro, que traz personagens marcantes como Ana Terra, mulher forte e decidida, matriarca da família Terra, Bibiana, sua neta, que em tudo se parece com a avó, e o Capitão Rodrigo Cambará, que encarna o mito do gaúcho livre, valente e sem fronteiras. Por causa de Bibiana, o capitão entra em conflito com Bento Amaral, filho do poderoso chefe das redondezas e protagoniza uma das cenas mais célebres do romance, a cena em que, num duelo, ele grava suas iniciais na face de seu inimigo, com a ponta da espada. A família Terra-Cambará, na verdade, será a grande opositora ao poder dos Amarais, e essa oposição será levada às últimas conseqüências e desembocará no cerco comandado pela família Amaral ao sobrado de Licurgo Terra Cambará (neto de Rodrigo e Bibiana), que é a cena inicial do romance. Note-se que a narrativa é toda pontuada por reminiscências. O tempo vai e vem e a única constância é a do vento, que parece soprar eternamente e acima de tudo. Em 1971, é lançado Incidente em Antares, obra que também acabou virando minissérie televisiva. Com as minisséries, quem não conhecia o trabalho de Érico ficou conhecendo. O escritor morreu em 28/11/1975, deixando inacabado o segundo volume de Solo de clarineta, obra na qual escreveu suas memórias. Seus livros foram traduzidos para uma infinidade de idiomas, alguns inclusive bem incomuns, como romeno ou javanês. O acervo de Érico, composto de manuscritos, originais de suas obras, cartas, documentos e livros (seus e de outros autores), está sob os cuidados da PUC-RS, cujo trabalho transformou-se em referência nacional na área de preservação de originais literários. A casa de seu avô, em Cruz Alta, transformou-se em museu e nele pode-se ver desde documentos e móveis da época em que Érico nasceu até fotos dele menino e um mapa da imaginária Santa Fé. Seus livros continuam sendo editados e vendidos até hoje. Ele era realmente, como gostava de se definir, um contador de histórias, mas um contador de histórias com letra maiúscula. Histórias que até hoje deliciam leitores de todas as idades.
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