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Ler
sem prazer

(*)
Diorindo Lopes Júnior
A menina foi
obrigada pela escola a ler um livro que escrevi, para uma prova.
Enviou-me um e-mail elogiando a história, o que muito me
envaideceu, mas ao mesmo tempo fez-me desanimado.
Não crio histórias para obrigar quem quer que seja
a ler ou delas gostar. Escrevo porque gosto, sou movido a leituras
e escritas. Aprendi a fazer isso (mais ou menos) direito ainda menino,
8 ou 9 anos.
Uma e outra, leitura e escrita, constituem o meu modo de vida, meu
jeito de ganhar dinheiro honestamente e, com ele, pagar as contas.
Contudo, nem todo mundo é assim ou tem de ser assim.
Ler, para mim, é fundamental. Foi lendo (muito) que aprendi
a escrever sem precisar me esforçar muito (decorar) para
aprender as regras gramaticais.
A mensagem desta menina levou-me, sem que eu desejasse, a uma volta
ao passado.
Tinha 14 anos quando fui "apresentado" a Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas, que odiei.
Reli-o já perto dos 30, compreendi e literalmente devorei
o máximo que pude de tudo que ele escreveu. Com outros autores,
também foi assim.
Penso que as escolas têm mesmo de incentivar a Leitura, mas
de uma forma convidativa, lúdica até, sem essa FORÇA
DE PROVA. Que os professores sugiram um livro por mês e marquem
uma aula para tratarem deste livro, discutirem-no em classe, sem
valer nota. Quem não leu, ouve quem leu comentar, mas, por
favor, mestre!, não faça da Leitura um inibidor da
Leitura.
Ler sem ter vontade é algo parecido como ser obrigado a comer
sem ter fome ou não gostar do que é servido - ou lido.
E Ler é, basicamente, prazer.
Graças a Deus, esta menina (de uma cidade paranaense) gostou
do que escrevi. Muito provavelmente, respondeu corretamente a questões
formuladas, onde eu, autor, também provavelmente erraria
ou mesmo não saberia responder.
Ler é uma coisa, a interpretação de quem lê
é outra. E, raramente, é a mesma. Afinal, o que importa
o que eu quis dizer? Importante, para mim, autor e leitor, é
o que irão interpretar ou o que eu vou interpretar. Comum,
apenas a necessidade de reflexão a respeito do que foi lido.
O resto, todo o resto, é purpurina. Perde o efeito de brilho
em qualquer 4ª feira - nem precisa ser de Cinzas.
(*) Diorindo
Lopes Júnior - diorindo@uol.com.br
- é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (Atual/Saraiva
Editora, SP) e Cesta de 3 (Alis Editora, BH).
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