Venezuela enfrenta crise militar.

 


Gilberto Rodrigues

O Presidente Hugo Chávez está enfrentando a maior crise militar de seu governo. Após sucessivas manifestações de insubordinação de oficiais de média patente, agora um Vice-almirante, designado embaixador do país na Grécia, pediu publicamente a renúncia de Chávez.

Os militares rebeldes acusam Chávez de haver instalado uma ditadura no país, com inspiração no regime cubano de Fidel Castro; também denunciam o presidente de estar colaborando com guerrilhas colombianas de esquerda. Por sua vez, Chávez nega esses envolvimentos, afirma que esses pronunciamentos são insuflados pela oposição a seu governo e diz contar com o apoio do alto comando das forças armadas.

Terrorismo - Após os atentados de 11 de setembro, podia-se prever que o governo de Chávez viria a enfrentar dificuldades externas e internas. Chávez fez tudo o que um político latino-americano poderia ter feito para desagradar o governo do EUA e gerar desconfiança no Ocidente: encontrou-se com Saddam Hussein em Bagdá (na condição de presidente pro tempore da OPEP), visitou e recebeu inúmeras vezes Fidel Castro, auxiliando economicamente os cubanos e gerou suspeitas de financiar ações guerrilheiras para desestabilizar regimes pró-EUA na América do Sul (lembre-se do Caso Montesinos).

Chávez tornou-se persona non grata para o governo americano que o vê como fator de desestabilização na região. Mas, ainda assim, o que mais impressiona no governo Chavista é sua capacidade em manter-se dentro da formalidade democrática. Chávez se propôs a combater a corrupção e refundar a Venezuela invocando o ideal de Simón Bolívar, para isso até mesmo o nome do país foi mudado para República Bolivariana da Venezuela. Seu governo caiu nas graças do povo porque se propôs a combater a corrupção e desafiar as elites, promovendo redistribuição de renda, reforma agrária e outras políticas anti-neoliberais. Sua postura atraiu a simpatia de diversos partidos de esquerda na América Latina, inclusive no Brasil. O problema é que o Presidente militarizou o governo e cada vez menos permite ser contestado e criticado pelos canais civis e democráticos.

Economia - Estas declarações de militares contrárias ao governo de Chávez ocorrem num momento delicado da economia venezuelana. Mais de 80% das divisas do país dependem do petróleo, recurso do qual é um dos cinco maiores exportadores mundiais. Com a recente queda do preço do barril, a Venezuela viu-se obrigada a deixar flutuar o câmbio, o que causou uma desvalorização em torno de 20% de sua moeda. O povo agora está descontente e a popularidade de Chávez despencou.

O coronel Hugo Chávez foi o líder de um malogrado golpe militar em 1992 contra o então presidente Andres Perez. Julgado, condenado e preso, obteve indulto, ingressou na política e elegeu-se presidente em 1998, vindo a abrir mão de metade de seu mandato para concorrer em novas eleições e reelegendo-se em 2000, com amplo apoio popular e poderes constitucionais fortalecidos.

Chávez apostará no aumento do preço do petróleo para revigorar sua posição e evitará ao máximo punir os insubordinados das forças armadas, um dilema perigoso para sua autoridade. Ele sabe, por seu próprio exemplo, que o militar afastado e punido poderá se tornar um seu forte opositor político em futuro não distante.





Gilberto Rodrigues, professor de Direito Internacional da UniSantos e Universidade São Judas Tadeu, é autor de O que são relações internacionais (Brasiliense) e de Globalização a olho nu (Moderna)

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