|
Colômbia
vota pelo fim das guerrilhas
Gilberto Rodrigues A eleição de Alvaro Uribe para a Presidência da Colômbia significa o voto claro e contundente do povo pelo fim das guerrilhas no país. Com um discurso de combate sem tréguas aos grupos guerrilheiros, Uribe elegeu-se com 53% dos votos, contra 32% de seu oponente, Horácio Serpa, do tradicional Partido Liberal. Trata-se de um divisor de águas na política colombiana: pela primeira vez um candidato fora das legendas do Partido Liberal ou do Partido Conservador vence uma eleição presidencial no país; também é fato novo um candidato vencer já no primeiro turno. Esta condição confere a Uribe legitimidade para dar cumprimento às políticas de fortalecimento do Estado colombiano e de enfrentamento aos vários grupos guerrilheiros, em especial às Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC). Um importante internacionalista que representa a Colômbia num dos órgãos do sistema das Nações Unidas, comentou a este colunista que as FARC "não entenderam o 11 de setembro". A data do espetacular ataque terrorista aos EUA marca um novo período das relações internacionais onde o combate ao terrorismo passa a ser prioridade e justificativa para ações antes impensáveis. O combate às guerrilhas entra facilmente na cota americana de ajuda a este propósito e dispõe de apoio de maior parcela da opinião pública, dentro e fora da Colômbia. Malogro - O atual Presidente, Andres Pastrana, tentou negociar de forma equilibrada com as FARC e para isso criou uma zona desmilitarizada, do tamanho da Suíça, nas região de San Vicente de Caguán, ao sul do país. As FARC assumiram o controle total da área e se beneficiaram dessa condição sem a contrapartida que se esperava do processo negocial, com o cessar-fogo permanente, a suspensão dos seqüestros e a progressiva entrega das armas etc. Críticos de Pastrana apontam que o governo deveria ter condicionado a cessão da área ao monitoramento das Nações Unidas, o que não ocorreu. Pastrana gastou praticamente todo o seu mandato na busca de uma solução negociada com a principal força guerrilheira, mas o processo malogrou. Poucos meses antes das eleições, o governo encerrou a negociação e determinou a desocupação da área pela guerrilhas. Politicamente a ação foi realizada tardiamente: o Partido Conservador, de Pastrana, sequer apresentou candidato, por excesso de impopularidade. Estratégia
- A estratégia de Uribe deverá ser a guerra total às
guerrilhas, tratando de diminuir seu poder e com isso forçá-la
a uma negociação em termos favoráveis para o governo,
com entrega das armas e reincorporação à vida civil.
Um modelo que hoje se cogita é o do conflito em El Salvador,
em que a paz foi obtida à custa de sangrento embate do governo
com a guerrilha, a partir de massiva ajuda americana e posterior mediação
da ONU. Fronteiras - O novo cenário colombiano afetará muito as relações da Colômbia com a América do Sul. O Brasil deverá ser o fiel da balança neste relacionamento e Uribe já declarou que deseja estabelecer um novo canal com Brasília. Nos últimos dias, a fronteira brasileiro-colombiana foi palco da maior megaoperação militar realizada até hoje na Amazônia. O Brasil quer mostrar-se forte para o que está por vir. Porém, o País deve estar preparado para ações muito mais complexas de inteligência envolvendo Banco Central, polícia, receita, ministério público e judiciário em todas as esferas federativas. A par disso, é necessário que as Universidades rompam com a timidez e assumam intensa e civilizadamente esse debate, porque a Colômbia já é problema nosso.
Gilberto Rodrigues é professor de Direito Internacional da UniSantos e Universidade São Judas Tadeu, autor de O que são relações Internacionais (Brasiliense) e de Globalização a olho nu (Moderna) E-mail: professor@gilberto.adv.br |
|
|
|
|