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Saúde:primeiro
texto aprovado em Johanesburgo
Vitor
Gomes Pinto Direto de Johanesburgo, África do Sul. 27/8/02 A realização da Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável em plena África e especialmente aqui em Johanesburgo é um ato de coragem e um desafio às desigualdades cada vez maiores que caracterizam o mundo de hoje. A democracia sul-africana tem apenas nove anos de vida, está longe de superar o apartheid racial que divide a sociedade entre brancos e negros, mas quer mostrar sua face de primeiro mundo que é aparente na área de Sandton, onde o evento acontece em três pontos distintos, um deles dedicado apenas às ONGs (rganizações não-governamentais). O desemprego atinge 36% da força de trabalho e o centro de Johanesburgo é, na prática, território proibido para brancos e extrangeiros. No entanto, o bairro de Soweto, um dos símbolos internacionais da miséria e da discriminação, é uma surpresa positiva para quem o visita. Nada da desorganização e dos esgotos a céu aberto de muitas favelas brasileiras. Ao contrário, as ruas bem calçadas, casas de tijolo, escolas, igrejas, campos de golfe e de futebol revelam uma população de classe baixa e média onde predominam famílias de operários que trabalham nas minas de ouro da cidade. O governo constrói casas estilo BNH, pagas a prestação. Nas que não têm água (um dos bens mais preciosos e caros da região), há um serviço de carros-pipa que abastece as caixas d'água. Discute-se praticamente de tudo na Rio + 10, desde as ameaças à biodiversidade do Ártico até a salvação da Amazônia ou do Mar Vermelho. O estande brasileiro faz sucesso entre os milhares de visitantes, no amplo pavilhão de exposições de Ubuntu, mostrando o projeto Tamar, os Lençóis Maranhenses, Furnas, castanhas de Xapuri, projetos de indústria responsável, serviços do Sesi e do Senai, turismo verde e uso do álcool como combustível. A área da saúde foi a primeira a conseguir fechar o texto que fará parte da declaração final da Cúpula, uma proeza, considerando que persistem grandes e generalizadas discordâncias entre países ricos e pobres, principalmente quanto ao dinheiro necessário para aliviar a pobreza no mundo em desenvolvimento. Não há novidades maiores no texto, que considera o direito à saúde um bem que só pode ser alcançado pela erradicação da pobreza e prevê a redução da mortalidade infantil em 2/3, até o ano de 2015, além de reafirmar o direito geral de acesso a serviços eficientes de saúde e a medicamentos essenciais, a preços que possam ser pagos por todos. Um capítulo especial foi dedicado à epidemia de AIDS, fazendo constar a meta de reduzir em 25% a ocorrência do vírus HIV na faixa de 15 a 24 anos, nos países mais afetados pela doença, até 2005, e, em todos os países, cinco anos mais tarde. Os números da AIDS são impressionantes: 40 milhões de pessoas infectadas no mundo, mais de 70% delas vivendo na África abaixo do Saara. 3 milhões morreram da doença no ano passado e há 14 milhões de crianças órfãs (perderam pelo menos um dos pais por esta causa). Botswana lidera, com 39% da sua população adulta infectada, a Suazilândia tem 33%, o Lesoto 31%. O Brasil, onde os programas liderados pelo Ministério da Saúde são considerados exemplares, a média entre adultos é de 0,7%. A África do Sul tem 4,7 milhões de adultos com o vírus (20%), o que levou Nelson Mandela a declarar em público que há pouco perdeu 3 parentes próximos, numa tentativa de apoiar a política de combate ao estigma do HIV na África. No vizinho Zimbábue, onde Robert Mugabe exerce seu apartheid ao contrário, expulsando os fazendeiros brancos de suas terras, nada menos de 2 milhões, do total de 6 milhões de adultos, (33,7%) tem a doença. Mugabe virá a Johanesburgo na próxima semana, mas não se encontrará com George Bush, que o quer fora do poder. O presidente norte-americano será dos poucos a não comparecer à Cúpula, enviando o Secretário Colin Powell em seu lugar. Enquanto isso, o Clube de Roma promoveu uma concorrida sessão de debates, na qual falou em reinvenção da democracia e em governos globais, mas este é um assunto para outra matéria. |
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