Relações internacionais ganham nova geopolítica



Gilberto Rodrigues

O dia 11 de setembro ganhou um significado próprio e universal. Um ano depois, a data converteu-se em marco que indica novos rumos da história mundial. Desde então, a surpresa e o gozo do ingresso no século 21 cederam lugar à angústia de estar no pós-11 de setembro.

Um balanço dos fatos que sobrevieram àquela data revela que os atentados terroristas aos EUA redeslocaram as relações internacionais para uma nova geopolítica. A segurança internacional voltou a ganhar lugar de destaque na política internacional e na diplomacia, retornando à condição de alta política, como nos velhos tempos da Guerra Fria.

Entretanto, a aceleração do tempo tecnológico e a era da globalização não permitem repetições de cenários históricos. Na Guerra Fria, os inimigos - EUA e URSS - tinham território definido, fronteiras físicas, armas conhecidas e soldados de carne e osso. E tinham um pacto de amigos: a repartição de áreas de influência. No pós-11 de setembro, o inimigo é virtual, uma rede sem epicentro conhecido, cujo líder se manifesta por meio de imagens à maneira de aparições místicas, carregadas de mensagens proféticas.

Amordaçada, (auto) censurada, seduzida pela estratégia conspiratória do governo Bush, a mídia americana deixou de informar e perdeu o precioso monopólio global que conquistara desde a Guerra do Golfo. O espaço ganhou novo ocupante: a cadeia de notícias internacional Al Jazeera, do Quatar, minúsculo país árabe localizado no Oriente Médio, que tornou-se o canal de notícias do mundo árabe e islâmico e por onde materializaram-se, vez por outra, Bin Laden e os membros da organização Al Quaeda. Prova de que a globalização é um fenômeno complexo e não está sempre a serviço dos EUA.

A guerra do Afeganistão foi a principal reação dos EUA contra os atentados. Uma reação desproporcional, atentatória ao Direito Internacional, que não logrou a captura de seu principal trófeu: Bin Laden continua solto e falante. Um segundo fracasso imperdoável à única superpotência militar do planeta.

Controles aéreos muito mais rígidos, investigação e perseguição de imigrantes, um vultoso pacote de ações de combate ao terrorismo internacional, o fortalecimento das estruturas de segurança em todos os níveis, esses e outros fatos vêm marcando a política doméstica americana. Mas o cidadão americano está menos seguro agora e mais vigiado. O big brother instalou-se na Casa Branca.

Um ano depois do 11 de setembro, o sentimento anti-americano aumentou e reduziu um precioso capital que os EUA haviam acumulado durante décadas, mas sobretudo durante a era Clinton: o de liderar o mundo nos novos cenários históricos, transitando na nova era que demanda proteger o meio ambiente, os direitos humanos e a democracia. Ao contrário do que se imagina, os EUA não estão sendo seguidos em sua nova e permanente cruzada contra o suposto mal.
O aumento da resistência global às pretensões unilaterais dos EUA é um dos sinais de que o mundo não pode ser tratado com a simplicidade de um filme de bangue-bangue.

 

Gilberto Rodrigues é professor de Direito Internacional na UniSantos e Universidade São Judas Tadeu, autor de O que são relações internacionais (Brasiliense) e co-autor de Globalização a olho nu (Moderna). E-mail: professor@gilberto.adv.br

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