Nas trincheiras da informação



Gilberto Rodrigues

Nunca um conflito armado internacional teve tão ampla cobertura de mídia como o do Iraque. Pela primeira vez na história, o mundo acompanha uma guerra por meio de várias versões, muitas vezes contraditórias. Há verdadeiras trincheiras em disputa pela guerra de informação.

Nas coletivas de imprensa, o governo norte-americano alimenta a mídia com dados, posições, números que induzem a uma vitória líquida e certa e que está muito próxima. Do lado iraquiano, o Ministério da Informação não fica nada atrás, anunciando que os americanos serão dizimados e não perdem por esperar. Em ambos os casos, o oficialismo está mais interessado em usar a informação como instrumento de manipulação da opinião pública.

Como impedir essa manipulação, ou como desmascará-la? Esse é o desafio dos correspondentes de guerra, enviados pelos jornais, rádios e outros meios ao teatro do conflito. Profissão de risco, cabe ao correspondente o papel fundamental de relatar o que de fato está ocorrendo, com imagens e textos, a partir de seu compromisso com o testemunho da verdade.

O risco de o jornalista ser manipulado é muito grande, pois as partes beligerantes sempre tratam de liberar acesso aos fatos que lhe são favoráveis, omitindo perdas e derrotas. Até mesmo as expressões usadas pelas autoridades para definir os eventos tentam minimizar seu impacto. Por exemplo, "fogo amigo" quer dizer que soldados aliados atingiram-se por engano. Alguém ouviu falar em despreparo, incompetência ou insubordinação? São palavras proibidas numa guerra.

Proteção - Um outro aspecto a considerar é o status do correspondente no território onde se dá o conflito. O Protocolo Adicional de 1977 às Convenções de Genebra de 1949, em seu artigo 79, equipara os jornalistas à população civil. A garantia é conferida à pessoa, não ao seu trabalho. Por isso, jornalistas não podem ser alvo militar, mas seu trabalho sim, podendo ter cerceados seus passos, obstruídas as suas câmeras e até mesmo ser expulsos por uma das partes no conflito.
O jogo da informação está muito mais complexo. A competição pelos furos de reportagem e pela imagem tocante também sacrificam, e muito, a ética jornalística e o direito internacional. Na era da informação, o destino de um conflito armado pode estar selado no bombardeio veloz e permanente de notícias, sobretudo aquelas que mostram as catástrofes humanitárias e as mentiras das partes envolvidas.


Gilberto Marcos Antonio Rodrigues é professor de Direito Internacional da Universidade Católica de Santos, autor de O que são relações internacionais (Brasiliense) e co-autor de Globalização a olho nu (Moderna). E-mail: professor@gilberto.adv.br

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