O tesouro perdido de Bagdá

Gilberto Rodrigues

 


Ultrapassados os portões de Bagdá, as tropas americanas encontraram pouca resistência vinda da soldadesca iraquiana. O maior e mais potente exército do mundo aniquilou militares e civis, invadiu ruas, adentrou palácios, derrubou monumentos. Mas algo estranho paira no ar: onde está o tesouro de Bagdá?

Foi visível a frustação transmitida pelas imagens de mariners entrando em palácios vazios, sem pistas nem rastros de Saddam Hussein e de seu acervo de riquezas. Ouro? Pedras preciosas? Âmbar? Especiarias? É possível que Saddam possua tais preciosidades, mas o que os americanos buscam são documentos secretos do regime. Provas que possam incriminar outros países, outros governos.

Até agora, nada parece ter sido encontrado. E mais: tudo leva a crer que parte desse tesouro já estaria em mãos alheias. As acusações e ameaças do Secretário de Defesa dos EUA contra a Síria, e o ataque americano ao comboio que retirava o Embaixador Russo de Bagdá, levantam suspeitas de que Saddam poderia ter negociado a entrega de parte de seu tesouro.

Talvez essa perda também explique a passividade dos americanos diante do caos que se instalou após a tomada de Bagdá. Saques e depredações são cometidos por populares sem nenhuma interferência das forças da coalizão. Trata-se de um problema sério, que implica responsabilidade das tropas e do comando da operação. O invasores e libertadores têm agora a obrigação de salvaguardar a ordem.

O espetáculo da derrubada das estátuas de Saddam e o desfraldar de bandeiras americanas no seu lugar traduz o símbolo da vitória. Que impacto essa imagem poderá causar em todo o Oriente Médio, onde todos os líderes são idolatrados, e têm suas imagens fixadas por todos os lados? Essa demonstração de força pode ter conseqüências imprevisíveis para a estabilidade da região e do mundo islâmico.

É compreensível que o fim do regime de Saddam cause euforia e alívio para grande parte do povo que se via oprimida, censurada e ameaçada pelos métodos autoritários e cruéis empregados pelo ditador. Mas a substituição desse regime tem de ser feita pela comunidade internacional, por meio da ONU, caso contrário um novo caos poderá se instalar ali e na vizinhança.

Quanto ao tesouro de Bagdá, certamente é prioridade de Washington encontrá-lo de qualquer maneira, a qualquer custo. Uma missão mais para Indiana Jones do que para Rambo.

 

Gilberto Marcos Antonio Rodrigues é professor de Direito Internacional da Universidade Católica de Santos, autor de O que são relações internacionais (Brasiliense) e co-autor de Globalização a olho nu (Moderna). E-mail: professor@gilberto.adv.br

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