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Irlanda
do Norte - escolas mistas são uma tentativa de semear a paz Cada vez mais se acirram as discussões sobre a intolerância racial e religiosa. A guerra contra o terrorismo, por conta dos atentados contra os EUA, em setembro, vem levantado uma questão invariavelmente ligada aos muçulmanos. Mas esse tipo de intolerância não existe só na religião de Maomé. Católicos e protestantes, por exemplo, convivem pacificamente em qualquer lugar do mundo, menos na Irlanda do Norte, como o mundo pode comprovar sempre que a imprensa mostra cenas chocantes, como as que mostrou há pouco mais de um mês. As escolas mistas - o depoimento de uma professora
"As crianças empregam, às vezes, termos pejorativos como Taig (católico) ou Prod, protestante. Mas também aprendem rapidamente a não fazê-lo", observa Olwin, que completa "Nós nos esforçamos para fazê-los dizerem, eles mesmos, o que consideram uma conduta aceitável." Os professores e as criança elaboraram juntos técnicas de tratamento dos conflitos apoiadas sobre o respeito aos sentimentos do outro. "Se eles são confrontados com a violência em palavras ou atos, eles dizem 'Pare, isto me machuca.'. Então, outras crianças devem assumir a responsabilidade do incidente, explicar o que aconteceu a apresentar as desculpas, se quiserem." As crianças formulam elas mesmas as regras que são aplicadas na classe e em suas brincadeiras, continua Olwin. "Eles as discutem e entram em acordo sobre elas. 'Sejamos gentis uns com uns outros', ou 'Vamos trabalhar sem barulho durante a aula.' Em caso de transgressão, eles aplicam suas próprias regras. Segundo os pais, certas crianças as aplicam inclusive em casa, fazendo os pais perceberem que não é preciso empregar certas palavras, porque 'ofendem meus amigos'." As diferenças entre católicos e protestantes (imperceptível para pessoas de fora) são levadas aos extremos das situações. "Peguemos a letra H, por exemplo. Uma criança disse à sua professora católica 'A senhora não pronuncia a letra H como se deve, deveria dizer aitch (conforme a pronúncia dos protestantes)'. A professora respondeu que era possível e correto pronunciar das duas formas, aitch ou haitch, com h aspirado ou não, e a criança aceitou a explicação". Olwin ensinava em uma escola exclusivamente protestante e reconhece que ela mesma teve de se questionar. "Eu me acreditava muito liberal. Mas meu pai era muito direitista e muito anticatólico; então, sem me dar conta, eu interiorizei uma parte de suas atitudes." Isto não a impediu de ficar muito feliz durante uma cerimônia católica de primeira comunhão "a única em Belfast na qual o teclado foi tocado por um protestante enquanto outra protestante, eu mesma, cantava os cânticos. Isto nunca havia acontecido nesta zona". Dirigir a escola
de Oakwood toma muito tempo. "Ela apoderou-se de minha vida",
reconhece Olwin. "Há momentos nos quais desanimo, mas
depois eu me sinto carregada pela determinação dos pais."
Ela é plenamente consciente do valor de seu trabalho. "Aqui
abordamos questões com as quais nem mesmos se começou
a sonhar no resto do país."
Para consolidar
seu domínio, o trono inglês enviou colonos escoceses
e ingleses ao país, dando-lhes terras e facilidades. Estes
colonos eram presbiterianos
ou puritanos,
dos quais os irlandeses acabaram virando quase escravos, pois cultivavam
suas terras e era obrigados a lhes pagar pesadas cotas das colheitas.
Ao longo das décadas, seguiram-se leis cada vez mais cruéis
e pragas que arrasaram as plantações, matando milhares
de irlandeses de fome. A pobreza extrema impediu que as reações
irlandesas dessem algum resultado. Durante o século 19, porém,
a reação voltou a se estruturar. Aproveitando a eclosão
da primeira
guerra mundial, um grupo de militantes da Irmandade Republicana
Irlandesa organizou uma série de ataques e tomou posse de muitos
pontos estratégicos de Dublin, o que ficou conhecido como Levante
da Páscoa. O exército inglês acabou controlando
a situação e prendendo quase todos os militantes. A
grande maioria dos líderes do movimento foi fuzilada. Foram
poupados Michael
Collins e Eamon De Valera, que fundaram, respectivamente o
Ira e o Sinn Féin, de atuação conjunta, embora
o primeiro tenha recorrido à ações de guerrilha
e o segundo tenha atuado no campo político. Novamente o exército
inglês entrou em cena, abafando violentamente as manifestações.
Após vários atentados sangrentos, os irlandeses conseguiram
um acordo com a Inglaterra, em 1921, que dava independência
parcial à Irlanda e dividia-a em duas partes, a formada pelas
regiões majoritariamente protestantes, que permaneceria ligada
à Inglaterra, sob a proteção da Irlanda do Norte
e a formada pelos católicos, que seria a República Irlandesa.
Michel Collins conseguiu que o tratado fosse aprovado pelo parlamento
irlandês, sob muitos protestos dos militantes. Foi considerado
traidor e morto em uma emboscada em 1922. Somente em 1949 a Irlanda
conquistou sua independência. Irlanda do Norte - palco dos conflitos sociais Os protestantes, historicamente contrários à República Irlandesa, ficaram com o controle absoluto da Irlanda do Norte, que, com apoio da Inglaterra, foi se tornando mais rica e industrializada, atraindo a mão de obra dos irlandeses católicos. Não é preciso esforço para entender os conflitos, a partir daí. Os católicos residentes na Irlanda do Norte passaram a ser fortemente discriminados, praticamente sem direitos eleitorais ou de cidadania. Aos poucos porém, sua presença foi aumentando, e, consequentemente, também o foram suas reivindações. Embalados pelas ondas revolucionárias dos anos 60, foram às ruas exigir igualdade de direitos. Os protestos foram violentamente reprimidos, inclusive pelo exército britânico, o IRA renasceu e um acordo de paz só foi assinado em 1994, acordo esse nunca respeitado por nenhum dos lados. Em 1998, 70% da população do país votou a favor de um novo acordo, no qual todos depositaram as esperanças. Todo mês de julho, porém, a tensão aumenta, em virtude das manifestações "religiosas" dos protestantes, que desfilam em cortejo pelas ruas. O processo de paz, no entanto, é demorado e incerto, apesar do patrocínio da Inglaterra e da República da Irlanda. No começo de setembro deste ano, crianças católicas foram apedrejadas enquanto iam à escola e bombas explodiram em escolas católicas, fato que chocou o mundo e voltou a chamar a atenção para os conflitos daquela região. Os protestantes alegam que suas residências são freqüentemente apedrejadas pelos católicos. Tudo isto indica, porém, que um processo de paz não se faz só com decretos. É preciso exercitar a tolerância e o respeito entre as pessoas e a Educação é o primeiro caminho para se conseguir isto. A maioria das crianças do país estuda em igrejas católicas ou protestantes, mas algumas experiências de escolas mistas tem dado resultado, embora sejam freqüentadas por um mínimo de 2% da população. Uma delas é a escola primária integrada de Oakwood, que abriu suas portas em 1996, na periferia de Belfast.
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