Um
depoimento sincero sobre ser negro no mundo
Leia
o depoimento
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O
Preconceito no Trabalho |
Minhas
raízes |
E
fora do Brasil, como é? |
Um
movimento negro pessoal |
Inúmeras
vezes vemos a questão da cultura negra, e com ela a do preconceito,
ser discutida no Brasil por artistas e intelectuais. Raramente se
houve a questão ser discutida por pessoas de outros meios.
Alguém de vocês conhece um alto executivo negro? Alguém
já ouviu falar da reação dos europeus quando
um negro entra em um restaurante de alto nível ou em um teatro.
E a dos americanos?
Para
falar sobre isto convidamos Marcos Moreira, executivo, brasileiro,
bem sucedido, pouco mais de 40 anos, Diretor de Business do Banco
Fiat, empresa pertencente ao Grupo Fiat, com sede na Itália.
De suas mãos saem muitas das grandes decisões envolvendo
o nome do banco. Marcos é negro, veio de família pobre,
realidade igual à de tantos outros brasileiros, e circula por
um mundo quase sempre reservado aos brancos. O alto posto que ocupa
e que o torna um dos principais representantes da empresa no Brasil
e no mundo, além de lhe proporcionar uma visão privilegiada
da questão racial, ainda o credencia a falar sobre formas de
vencer o preconceito. Seu depoimento é uma injeção
de ânimo e um exemplo de que é possível conquistar
coisas, vencendo o preconceito.
Leia
o depoimento
"De
formação contábil e administrativa, comecei na
empresa como office boy, com 14 anos de idade. Sem dinheiro para cursos,
aprendi datilografia e cálculos nos horários de almoço.
Aos 18 anos já ocupava a função de encarregado
da tesouraria. A pouca idade me obrigava a comportar-me com uma maturidade
que ainda não tinha no campo pessoal. Depois disto, assumi
a área de contabilidade da empresa e, aos 23 anos de idade,
o cargo de Gerente Administrativo, quando também me casei.
Em uma época na qual idade era sinônimo de experiência,
eu era jovem e negro. A empresa ainda não era do tamanho que
é hoje, as pessoas se conheciam, o que tornou muito mais fácil
o aparecimento de minha competência. Depois veio a Gerência
de Produtos e então a Gerência de Planejamento e Marketing,
quando ingressei de vez na área comercial. Em 1995, assumi
a Diretoria Comercial do Banco e, no ano de 2001, uma diretoria chamada
Diretoria de Business, que é um nível superior às
outras diretorias e acima da qual está apenas a superintendência
da empresa.
Minha primeira lição de vida, no campo profissional,
foi aos 13 anos de idade, quando trabalhava como Embalador numa fábrica
de roupas. A função imediatamente superior à
minha era a de Separador de Pedidos. Eu era o melhor embalador da
fábrica, fazia malabarismo com as caixas de papelão,
como o pizzaiollo que roda as pizzas. Nesta época entrou, na
mesma função que eu, outro rapaz, chamado Cícero
(a lição foi tão boa que nunca esqueci o nome
deste rapaz). Ele embalava as roupas com menos arte, mas com a mesma
competência que eu e, quando não tinha nada para embalar,
corria para fazer separação de pedidos. Não demorou
muito, ele foi promovido a Separador de Pedidos. Nunca mais esqueci
a lição. Também eu era capaz de separar pedidos,
mas não atentei para a oportunidade que tinha diante dos meus
olhos. A partir daquele dia prometi para mim mesmo que estaria atento
à todas as oportunidades que surgissem. Uso esta máxima
até hoje, em minha carreira.
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O Preconceito no Trabalho
Minha
trajetória profissional não teria sido mais rápida
se eu não fosse negro, mas com certeza teria sido mais fácil.
Dos 14 aos 34 anos eu fui de boy a diretor. Por ser negro e muito
jovem, meu desafio era dobrado. Se eu, por exemplo, em situações
de competição, fosse igual, provavelmente não
estaria aqui conversando com você. A diferença é
que para que eu chegasse onde estou hoje sempre tive de fazer notoriamente
mais que os outros, fazer igual nunca foi o suficiente.
Poucas vezes senti
claramente o preconceito dentro da empresa. Às vezes eu percebia
que, ao fazer uma visita com algum colaborador, havia um certo receio
de me apresentar como sendo o chefe. Hoje em dia, o que acontece são
coisas do tipo, quando eu vou em algum evento ou alguma festa, me
perguntarem de quem eu sou motorista, ou pensarem que eu sou segurança
de alguém. Isto não me ofende de modo algum. Eu não
vejo a cor das pessoas, não aprendi a ver, aos meus olhos todos
são iguais. Talvez isto me ajude a não reparar em algumas
situações que podem ocorrer. Diante disto eu dou uma
resposta que não deixe a pessoa embaraçada, porque em
geral ela não fez aquilo por maldade, fez porque aprendeu a
pensar assim (às vezes é outro negro que faz isto).
É um padrão que a sociedade criou e que contamina a
todos, inclusive os próprios negros. Acontece muito também
de eu ir a algum lugar badalado e as pessoas ficarem pensando que
eu sou pagodeiro, ou jogador de futebol, ou ator, ou algo assim. Nunca
pensam que eu sou um executivo.
Eu
consegui, ao longo destes anos construir um nome que me precede na
área em que atuo. Se vou me encontrar com alguém, ter
uma reunião, esta pessoa já sabe quem eu sou, porque
meu nome é conhecido no meio. Portanto, não enfrento
hoje nenhum tipo de dificuldade ao visitar algum cliente. Normalmente
tenho um tratamento diferenciado para melhor. Mas no mercado realmente
não há executivos negros, não conheço
nenhum. Talvez alguns que sejam negros para os padrões norte-americanos,
mas não o são para os padrões brasileiros. Aqui
eles passariam por brancos, embora tenham origem negra. São
os pardos. A raça e a cor são duas coisas diferentes
no Brasil.
Sei que existem
estatísticas dizendo que os salários de funcionários
negros são mais baixos do que os salários de funcionários
brancos em igual função. Não acredito que isto
aconteça em grandes corporações, pois os salários
são determinados por faixas e funções, não
são definidos pelas pessoas. Acho que as oportunidades são
diferentes. O mesmo acontece, por exemplo, com as mulheres. Na hora
que surge uma promoção e os competidores são
um homem e uma mulher, a chance do homem ser o escolhido é
muito maior. Ou então determinadas funções, tipo
Marketing, RH, rotula-se que são mais adequadas para mulheres
Novamente é um padrão de comportamento.
Penso que mudança
neste sentido vem ocorrendo já há bastante tempo. As
mulheres todos os dias dão provas de que são competentes
tanto quanto ou até mais do que os homens e também os
homens estão se abrindo para perceber isto. É um problema
que começa em casa. Se um homem não consegue ver sua
esposa como tão competente quanto ele, ainda que ela exerça
as funções do lar, logo também discriminará
as mulheres que trabalham com ele. Se eu achar que meu filho é
mais capaz que minha filha, essa cultura que eu implanto em casa chegará
ao campo profissional, o que me leva a concluir que estas mudanças
começam em casa, através da educação.
Tenho que mostrar aos meus filhos que eles são iguais, assim
como todas as pessoas são iguais. Amanhã entregaremos
para a sociedade pessoas que enxergarão a essência dos
seres, enxergando, portanto, todos com igualdade, sejam homens, mulheres,
brancos, negros ou índios.
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Minhas
raízes
Meu pai é
negro, definitivamente negro, de raça e de cor, e minha mãe
cabocla, mas com origens negras provavelmente. Eu sou negro, tenho
uma irmã bem clarinha, meu irmão, já falecido,
era claro, com os cabelos ruivos e bem crespos. Minha esposa é
branca, e uma única vez conversamos sobre isto. Quando já
estávamos muito envolvidos, eu perguntei a ela se estava me
namorando porque eu era negro, ou por causa da minha pessoa. Há
mulheres brancas que gostam de homens negros e eu queria saber se
ela tinha essa preferência ou se havia gostado de mim. Eu acabei
ouvindo o que queria, que era da minha pessoa. Os pais dela, italianíssimos,
sempre me receberam de braços abertos. Nunca tive um problema
sequer com eles. Minha família é uma miscigenação,
tenho uma irmã que se casou com um alemão, outra irmã
casou-se com um japonês. Minha sobrinha está namorando
um negro e é tudo muito normal na minha casa. É um caldeirão
e ensinamos a não diferença.
Minhas raízes
africanas se manifestam muito na comida. Gosto de pratos fortes, bem
temperados, substanciais Acho que a cultura foi mais explicitamente
preservada na comida. A comida mineira, minha preferia, é muito
africana. Também adoro feijoada e onde quer que eu vá
conto sua história e apresento-a como o prato principal do
meu país, porque é a origem do meu povo e eu tenho orgulho
dela. Acabei por gostar bastante da culinária italiana, influência
das muitas viagens à Itália, e da japonesa, por questões
de saúde. Mas uma caipirinha, acompanhando uma feijoada num
domingo frio, é incomparável.
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E
fora do Brasil, como é?
É curiosa a forma como os Europeus reagem à presença
de um negro vestido à européia. Discriminação
nunca senti, mas é impossível não chamar atenção
quando vou a algum lugar público fechado. As pessoas querem
entender quem está lá, de onde sou; em geral pensam
que sou americano e já se aproximam de mim falando inglês.
Os negros que vivem na Europa são, em geral, africanos que
fugiram de seus países, trabalham em subempregos e usam as
roupas típicas, portanto são fáceis de identificar.
Aí quando eu chego, vestido à européia, pensam
logo que sou americano. Na Europa, se você é negro, ou
você é um turista e será bem tratado como tal
ou é africano e muito discriminado. Não existe a predisposição
para mistura de raças, o que no Brasil é muito grande
e nos EUA menor.
Acho que o maior
racismo que existe no Brasil não é racial, é
social, é grana. Aqui brancos e negros convivem bem se estão
na mesma posição social O racismo aqui não acontece
comigo, que tenho dinheiro, carros bons e um bom apartamento. O difícil
é ser negro e pobre, japonês e pobre. A discriminação
é multirracial, massacrantemente econômica e divide a
sociedade nos que têm dinheiro e nos que não têm.
A cor vem em segundo plano. A sociedade se divide em extratos e depois,
entre estas camadas, vai haver discriminações raciais
sim. Nos EUA, a discriminação ocorre de uma forma diferente,
brancos e negros convivem no mesmo ambiente mas não se misturam,
não tem intimidade. Eu tenho um colega de trabalho negro e
outro branco. Quando eu sair par tomar chope, chamarei meu colega
negro, nunca meu colega branco. Brancos com brancos, negros com negros.
Aqui não, se você for na favela ou na alta sociedade,
vai encontrar brancos convivendo com negros. O grande problema do
Brasil é a falta de respeito com quem é pobre. Uma pessoa
com condição social inferior não será
bem recebida numa loja e num restaurante, enquanto que nos EUA o tratamento
é padrão, até porque se o sujeito não
padroniza ele pode ser processado. Americanos tem muito medo disto,
e nós não, porque não temos punição.
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Um
movimento negro pessoal
Quanto aos movimentos
negros organizados, nunca participei de nenhum nem conheço
o suficiente para falar. Penso se eu faço um bom trabalho na
sociedade, estarei beneficiando minha raça e abrindo caminhos
para os que vem depois. Na minha opinião este é o maior
serviço que posso prestar para meus iguais, honrando-os e mostrando
que um negro pode ser competente, trabalhador, honesto, rico, bom
pai, pode servir bem à sociedade, que pode ter dinheiro, viajar,
freqüentar lugares, falar idiomas diferentes, que ele é
igualzinho a qualquer outro ser.
Depois acho que
posso atuar diretamente, ou seja, orientando outros negros que estão
lutando, mostrar que podem vencer, estimulá-los a crescer,
dar oportunidade sem preterir um branco, porque senão cairei
em uma discriminação inversa. Este é meu movimento
negro individual, pessoal. Também desenvolvo alguns trabalhos
de assistência social, sem prender-me à cor, e sei que
há muitos negros em situação de pobreza. Tenho
a opinião de que quanto mais chamarmos atenção
para as diferenças, mais elas vão existir. Um exemplo
concreto disto é o Dia da Mulher. Talvez este dia alguma vez
tenha sido importante, mas hoje ele atrapalha, porque enquanto estivermos
comemorando o dia da mulher, o dia do índio, estaremos mostrando
à sociedade que eles são diferentes, enquanto ao acabarmos
com isto estaremos sinalizando que esta diferença não
existe. Ou então criar o dia do homem, para mostrar a igualdade.
Os movimentos que tentam, do ponto de vista social, evidenciar a raça
negra, me parece que acabam salientando as diferenças.
O
que tenho a dizer aos jovens negros que estão sentindo a discriminação
que por certo existe é que eles acreditem neles mesmos. Acho
que este é o grande estímulo que precisa. Acredite em
você e os outros também acreditarão. Não
acreditem nas diferenças, vejam-se como iguais e os outros
os verão como iguais. E trabalhem duro, firme, sejam exemplos,
porque quanto mais bons exemplos dermos, mais rápido eliminaremos
as diferenças sociais e raciais."
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