Pesquisa
violência nas escolas - 2000
Incidência, causas, conseqüências e sugestões
A UDEMO realizou,
no final do ano de 2000, uma nova pesquisa sobre violência
nas escolas, a exemplo do que vem fazendo desde 1995. Dessa vez,
no entanto, a pesquisa foi ampliada, elevando de seis para treze
itens, incluindo dados sobre indisciplina, comunidade e módulo
escolar.
Foram estudadas 496 escolas da rede pública estadual, representando
as diversas regiões do Estado: Capital, Grande São
Paulo, Interior e Litoral.
Os resultados foram distribuídos em três partes, para
facilitar o estudo: tabulação, comentários
e análise. No final, foram acrescentadas algumas conclusões
a que se chegou, após a leitura e exame de todo o material
enviado pelas escolas envolvidas.
Essa é mais uma ação de uma entidade que se
preocupa, cada vez mais, com os destinos da escola pública
estadual e, principalmente, com a educação escolar
pública, gratuita e de qualidade no Estado de São
Paulo.
Foram pesquisadas 496 escolas da rede pública estadual. Destas,
404 (81%) sofreram algum tipo de violência no ano de 2000.
Tipos
de violência sofrida pelas escolas
|
A) Em relação a bens materiais |
Percentual
de escolas envolvidas |
| 1.
Depredações no prédio (mobiliários,
lâmpadas, torneiras, vidros, apedrejamento, alambrados,
extintor de incêndios, aparelhos de TV, ventiladores,
alarmes, etc..) |
52% |
| 2.
Arrombamentos
(portões, cadeados, vitrôs, etc.) |
51% |
| 3.
Pichações na parte externa. |
45% |
| 4.
Pichações na parte interna |
37% |
| 5.
Furtos (TV, vídeo cassete, som, cantina, veículos,
material didático, antena parabólica, etc.) |
36% |
| 6.
Explosão de bombas dentro da escola (em banheiros, telhados) |
34% |
| 7.
Danificações de veículos |
33% |
| 8.
Incêndio provocado dentro do prédio escolar (em
cortinas, cartazes, murais, etc.) |
19% |
| 9.
Blecautes provocados por alunos |
18% |
| 10.
Colocação de explosivos (inclusive granada) dentro
da U.E. (mas que não explodiram) |
3% |
| 11.
Disparos contra o prédio escolar |
3% |
| B)
Em relação às pessoas |
|
| 1.
Desacato, agressões (físicas ou verbais) a Professores
(por parte dos alunos, pais ou responsáveis) |
84% |
| 2.
Brigas internas (envolvendo apenas alunos) |
68% |
| 3.
Desacato, agressões (físicas ou verbais) a Funcionários
da escola (por parte dos alunos, pais ou responsáveis)
|
64% |
| 4.
Desacato, agressões (físicas ou verbais) a Diretor
(por parte dos alunos, pais ou responsáveis) |
49% |
| 5.
Tráfico e consumo de drogas nas imediações
da escola |
48% |
| 6.
Brigas internas (envolvendo alunos e estranhos) |
34% |
| 7.
Porte e consumo de bebidas alcoólicas dentro da U.E. |
27% |
| 8.
Conflitos entre pais, no interior da escola, em função
dos filhos |
25% |
| 9.
Tráfico e consumo de drogas dentro da escola |
24% |
| 10.
Ameaças de morte (a alunos, funcionários, professores,
direção) |
22% |
|
11. Invasão de estranhos na U.E. (para agressão,
tráfico de drogas, assalto, etc.) |
19% |
| 12.
Uso de armas por alunos (qualquer tipo de arma) |
18% |
| 13.
Tiroteio nas imediações da escola (colocando em
risco os alunos) |
13% |
| 14.
Morte de aluno (homicídio) |
4% |
| 15.
Tiroteio no portão de entrada da escola (colocando em risco
os alunos) |
3% |
| 16.
Estupro e/ou abuso sexual contra alunos |
3% |
| 17.
Brigas externas à escola (envolvendo alunos) |
2% |
| 18.
Tiroteio dentro da escola (colocando em risco os alunos) |
0,9% |
| 19.
Estupro e/ou abuso sexual contra professores / funcionários
|
0,4% |
| 20.
Seqüestro relâmpago (Diretor/Professor) |
0,4% |
| 21.
Furto de armas de policiais femininas |
0,2% |
| 22.
Suicídios (alunos, professores ou funcionários)
|
0,2% |
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| Turnos
e períodos em que ocorreu a violência |
|
| Manhã |
12% |
| Tarde |
27% |
| Noite
|
24% |
| Mesma
freqüência, em todos os turnos |
25% |
| Fora
dos turnos (fins de semana e feriados) |
12% |
| Em
relação aos anos anteriores |
|
| Aumentou |
44% |
| Manteve
o mesmo nível |
34% |
| Diminuiu
|
22% |
|
|
Policiamento
88% não possuíam policiamento feminino
12% possuíam policiamento feminino
65% das escolas gostariam de ter policiamento apenas preventivo
23% gostariam de ter, ao mesmo tempo, policiamento preventivo e repressivo
10,75% não vêem vantagem nesse tipo de policiamento
0,25% gostariam de ter policiamento apenas repressivo
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76% das escolas
já fizeram uso de Boletins de Ocorrência, enquanto os
outros 24% nunca registraram algum
Indisciplina dos
alunos
55% das escolas afirmaram que está suportável
28% afirmaram que está assustadora
15% afirmaram que está se tornando incontrolável
2% afirmaram não ter esse problema
Comparando
a indisciplina com o ano de 1999:
51% das escolas afirmaram que ela aumentou
33% afirmaram que está igual
16% afirmaram que diminuiu
Na opinião da direção e do Conselho de
Escola, as principais causas
| 1.
Com relação à família: |
|
| Motivos |
% |
| 1.1. desagregação
familiar: separações, mortes, consumo de drogas,
falta ou inversão de valores morais e éticos, desprestígio
da educação, carência afetiva dos filhos |
51% |
| 1.2. pais
omissos: ausentes dos problemas escolares, coniventes com os erros
dos filhos, não incentivando os estudos, não impondo
limites aos filhos, jogando para a escola a responsabilidade da
família |
50% |
| 1.3. carências
múltiplas: desemprego, miséria, exclusão
social, falta de tempo para os filhos |
27% |
| 1.4.
falta de religiosidade |
6% |
| 1.5.
falta de apoio psicológico e assistência social |
2% |
| 2.
Com relação aos alunos: |
|
| Motivos |
% |
| 2.1.
falta de perspectivas, descrença nas instituições,
desinteresse pela escola, falta de identificação
com os professores e com a escola |
32% |
| 2.2.
interpretação errônea do ECA (direitos supervalorizados
sem a contrapartida dos deveres), não-obediência
às regras e normas de convivência, sentimento de
impunidade, leis excessivamente permissivas, falta de padrões
comportamentais positivos no grupo |
24% |
| 2.3.
dificuldades de aprendizagem, fracasso escolar |
10% |
| 2.4.
influência negativa da mídia e banalização
da violência |
8% |
| 2.5.
consumo de drogas |
7% |
| 2.6. ociosidade
das crianças e dos adolescentes associada à falta
de projetos multi-disciplinares, extra-curriculares (prática
de esportes, prática musical, exercício da solidariedade,
trabalhos comunitários, etc...) |
6% |
| 3.
Com relação aos professores e à escola:
|
|
| Motivos |
% |
| 3.1.
falta de professores, faltas dos professores, desestímulo,
descompromisso, baixos salários, jornada excessiva de trabalho,
formação deficiente, falta de habilitação,
metodologia inadequada, rotatividade excessiva, falta de treinamento
e capacitação |
23% |
| 3.2.
falta de espaços físicos adequados para as atividades
cotidianas |
5% |
| 4.
Com relação ao sistema: |
|
| Motivos |
% |
| 4.1. problemas
com o sistema escolar: mudanças bruscas sem o prévio
preparo, currículo defasado, inadequado e restritivo, módulo
incompleto, descaracterização da progressão
continuada em promoção automática, centralização
excessiva das decisões (nos órgãos superiores)
|
15% |
| 4.2.
Conselho Tutelar pouco atuante ou agindo contra os interesses
da escola |
1% |
| Participação
dos pais e da comunidade |
| 52%
das escolas, essa participação é razoável |
| 21%
essa participação é boa |
| 20%
essa participação é ruim |
| 5%
essa participação é péssima |
| 2%
essa participação é ótima |
|
|
A
violência interfere na qualidade do ensino e no projeto pedagógico?
Segundo as escolas pesquisadas, a violência interfere na qualidade
do ensino e no projeto pedagógico, devido a:
|
Motivos |
% |
| a) Gerar
indisciplina, prejudicando o clima indispensável à
realização do processo ensino-aprendizagem; afastar
alunos e professores dos projetos extra-classe; tomar muito tempo
útil da direção e dos professores; danificar
o material didático, prejudicando o desenvolvimento das
aulas e dos projetos; consumir verbas que poderiam ter melhor
aplicação e que acabam sendo gastas em consertos
do patrimônio escolar ou recompras de material pedagógico
|
41% |
| b) Causar
nos alunos: ansiedade, insegurança, queda na auto-estima,
desinteresse, desmotivação, reação
de auto-defesa, apatia, agressividade, dificuldade de relacionamento
|
23% |
| c) Causar
nos docentes: estresse, medo, ansiedade, angústia, insegurança,
desmotivação, sentimento de impotência |
15% |
| d) Levar
alunos à evasão e à repetência, estimular
a falta às aulas, gerar intrigas e desrespeito, criar situações
vexaminosas e constrangedoras para os alunos |
9% |
| e) Prejudicar
o relacionamento aluno/aluno, aluno/professor, aluno/direção
e escola/comunidade |
8% |
| f) Prejudicar
as Horas de Trabalho Pedagógico Coletivas (HTPCs), pois
essas reuniões acabam virando debates sobre indisciplina
e violência na unidade escolar, ao invés de servirem
para otimizar a execução do projeto pedagógico
|
7% |
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Sugestões
das escolas para solucionar/minimizar o problema da violência
|
|
Sugestões |
Percentual de escolas envolvidas |
| 1.
Projetos de conscientização e valorização
da escola envolvendo pais, alunos e comunidade em geral |
55%
|
| 2.
Policiamento permanente e intensivo |
52% |
| 3.
Contratação de psicólogos para as escolas
|
47% |
| 4.
Contratação de vigias, porteiros e inspetores
de alunos |
47% |
| 5.
Uso de uniforme como elemento de identificação do
aluno |
46% |
| 6.
Instalação de centros de lazer, esportes e cultura
na escola, no bairro e/ou comunidade |
45% |
| 7.
Alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente |
37% |
| 8.
Punições para os alunos infratores, incluindo
comunicação ao Juízo da Infância e
da Juventude |
34% |
9.
Redução do n.º de alunos por classe
|
33% |
| 10.
Exigir maior presença dos pais na escola |
31% |
| 11.
Instituir projetos extracurriculares (com remuneração
dos profissionais) para manter os alunos ocupados |
30% |
| 12.
Proibição da permanência de pessoas ou grupos
estranhos na entrada / saída de alunos |
30% |
| 13.
Criação de Centros de Apoio ao menor de rua, com
atividades dirigidas |
25% |
| 14.
Instalação de cursos profissionalizantes |
22% |
| 15.
Construção de zeladorias |
20% |
| 16.
Introdução urgente do Projeto Renda Mínima
(para as famílias carentes) |
20% |
| 17.
Contratação de Assistentes Sociais |
17% |
| 18.
Viabilização das aulas de Religião |
17% |
| 19.
Instalação da Biblioteca, com a respectiva contratação
de uma Bibliotecária |
17% |
|
20. Iluminação adequada nos arredores do
prédio escolar |
16% |
| 21.
Colocação de postos policiais próximos às
escolas de periferia |
14% |
| 22.
Crianças iniciando aprendizado profissional mais cedo |
12% |
| 23.
Reforço do prédio escolar c/ colocação
de grades de ferro, cadeados, alambrados, alarmes, etc |
11% |
| 24.
Redução do nº de salas de aula (tornando as
escolas menores) |
8% |
| 25.
Adoção de teste anti-drogas nos alunos |
5% |
| 26.
Mudança urgente da grade curricular do ensino médio |
5% |
| 27.
Instituir a revista pessoal na entrada e saída dos alunos
|
3% |
| 28.
Aulas sobre valores humanos |
0,2% |
| |
|
Comentários
sobre os resultados da pesquisa
A pesquisa revelou que a violência é uma constante na
vida das escolas, tendo conseqüências diretas em três
itens básicos:
Com
relação ao patrimônio
São comuns (e preocupantes) dentre outros, os casos de depredação
da escola, pichações, arrombamentos, furtos, danos a
veículos, incêndios, explosão de bombas, disparos
contra o prédio.
Cerca de 18% das escolas pesquisadas acusaram ocorrências de
blecautes, ou seja, queda de energia elétrica provocada pelos
próprios alunos.
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Com
relação às pessoas
cotidiano escolar
está impregnado de brigas, discussões, agressões,
ameaças, desacatos e conflitos, envolvendo, ainda, os pais
dos alunos. Direção, professores e funcionários
são alvos constantes de agressões (físicas e
verbais) por parte de alunos e pais.
tráfico
e o consumo de drogas, dentro e fora da escola, sofreram um aumento,
com relação ao ano anterior.
27% das escolas
pesquisadas relataram que alunos portavam e consumiam bebidas alcoólicas
durante as aulas. 19% das escolas foram invadidas por estranhos, com
objetivo de furto, roubo, estupro, tráfico, de drogas. 18%
acusaram porte ilegal de armas, por parte dos alunos.
A violência
ocorreu com maior freqüência no período da tarde
(27%), o que é novidade. Em seguida, vem a violência
que ocorre com a mesma freqüência em todos os turnos (25%).
O período noturno, geralmente mais complicado, aparece em terceiro
lugar (24%). Muitas escolas têm problemas nos finais de semana
e feriados (12%). Como já era esperado, o período da
manhã é o menos problemático (12%).
Um número
muito grande de escolas (81%) ainda sofrem com a violência.
Dessas, 44% responderam que a violência aumentou em relação
aos anos anteriores; 34% responderam que ela se manteve no mesmo nível;
22% responderam que ela diminuiu, mas não desapareceu.
76% das escolas
já registraram ao menos um Boletim de Ocorrência na Delegacia
de Polícia. Isso mostra que as unidades escolares vêm
procurando as delegacias para registrar ocorrências, o que é
positivo.
Das 496 escolas
pesquisadas, 88% não tinham policiamento feminino. Dessas,
90% queriam algum tipo de policiamento. As escolas que tiveram policiamento
especializado sentiram-se mais seguras.
Para tentar solucionar
o problema da violência e desenvolver um trabalho educativo,
as escolas apresentaram sugestões de ordem variada: políticas
de segurança, atendimento especializado às famílias
desagregadas, atendimento psicológico, assistência social,
construção de centros de lazer na comunidade, ampliação
dos eventos culturais e esportivos, uso do uniforme, interpretação
e aplicação sensata do Estatuto da Criança e
do Adolescente, redução do número de alunos por
sala de aula, redução do tamanho das escolas, projetos
de conscientização dos alunos e dos pais, campanhas
de valorização da escola.
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Com
relação à disciplina
55% das escolas pesquisadas afirmaram que a indisciplina dos alunos
está no nível do "suportável"; para
28% , a indisciplina é "assustadora" e para 15%,
ela está no nível do "incontrolável".
Apenas 2% das escolas pesquisadas não se queixaram da indisciplina.
São escolas de 1ª à 4ª série, com boa
infra-estrutura e um número reduzido de alunos.
A pesquisa mostra que a indisciplina tem aumentado nos últimos
anos. As escolas vinculam esse aumento aos problemas familiares e
sociais (desagregação familiar, desemprego, omissão
dos pais, carências múltiplas).
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Análise
dos resultados da pesquisa

Após a leitura e tabulação dos dados pudemos
constatar algumas situações-problema, além da
violência em si, que impedem ou dificultam a execução
do projeto pedagógico da escola:
Em
relação à comunidade onde está localizada
a escola
Falta de participação da comunidade.
A comunidade precisa participar ativamente na escola, através
de reuniões, cursos, palestras, jogos debates, etc... A escola,
por sua vez, deve oferecer à comunidade projetos coletivos
(culturais e de lazer), para estimular as ações sociais,
a solidariedade e desenvolver regras de convivência, criando
um certo "pacto coletivo" que legitime a importância
da instituição escolar.
É necessário,
ainda, que a comunidade tenha à sua disposição,
e gratuitamente (através, por exemplo, das Unidades Básicas
de Saúde e das Diretorias de Ensino), profissionais habilitados
que possam colaborar na área da Psicologia, Assistência
Social, Terapia Ocupacional, Orientação quanto às
drogas lícitas e ilícitas, Economia Doméstica,
Planejamento Familiar, Papel da família na educação
do filhos. Uma boa iniciativa, nesse campo, é o PROERD - Programa
Educacional de Resistência às Drogas (projeto da Polícia
Militar do Estado de São Paulo).
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Em
relação à família
Pouca participação da família na educação
dos filhos
É imprescindível que a família acompanhe o trabalho
escolar. Os pais devem estimular a vida escolar dos filhos, participar,
e conscientizá-los da importância da escola, dos professores
e da educação como um todo. Por outro lado, é
inútil querer transferir para a escolas a parte que cabe à
família, na educação.
Há uma grande preocupação com as drogas, as violências
que nascem em casa, as lacunas nas normas de convivência e com
a fixação de regras e limites para os alunos/filhos.
As escolas que
recebem alunos oriundos de acampamentos dos Sem-Terra enfrentam uma
situação muito peculiar: os pais não participam
da vida escolar. No geral, os alunos faltam muito, são revoltados,
apáticos, desinteressados, carentes e com sérias defasagens
de aprendizado. Além disso, a rotatividade e o constante deslocamento
das famílias são prejudiciais à educação
escolar.
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Em
relação à escola
Como regra, a escola não está equipada e preparada para
trabalhar todas essas questões. Muitas vezes, os problemas
sócio-educacionais se apresentam como insolúveis, como
obstáculos intransponíveis para a realização
da tarefa educacional. Na ótica da direção, os
professores passam por situações constrangedoras, uma
vez que têm uma jornada árdua, muitas vezes uma formação
deficitária e um salário incompatível com sua
função. Sentem-se desestimulados e impotentes para resolver
a questão educacional, uma vez que os problemas são
de ordem familiar, política, estrutural, social e econômica.
Além disso, o professor fica muito pouco tempo com o aluno.
A escola parece não ter mais utilidade para os alunos; eles
a encaram antes como local de "lazer" e não como
ambiente sócio-cultural (e de trabalho).
A pesquisa aponta
para a necessidade de resgatar o papel do professor enquanto Educador:
revisão de jornada e salário, treinamentos, aperfeiçoamentos,
criação de condições para que os docentes
se fixem numa única unidade escolar, aproximando-os mais da
comunidade.
Do trabalho do
Diretor de Escola e de sua liderança depende a eficácia
da atividade escolar. É urgente que o poder público
valorize e apóie esse profissional.
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Em
relação ao aluno
A pesquisa indica que os alunos estão um tanto desorientados
quanto à postura na escola, no grupo de amigos e na própria
família, tendo uma visão equivocada de direitos e deveres.
Acreditam nos seus direitos, mesmo quando em detrimento da vida coletiva.
Crêem que são impunes, frente ao Estatuto da Criança
e do Adolescente. Falta orientação sobre sexo, drogas
e vida em grupo. Os conflitos de gangues tornam-se cada vez mais freqüentes.
Como estímulos negativos (e fatores desmotivadores), têm
muito peso a violência, as notícias sobre corrupção
no país e o desemprego. A indisciplina geralmente é
fomentada pela ação eficiente de pequenos grupos. Na
sua grande maioria, no entanto, os alunos pedem um sistema justo e
pacífico de convivência social, segundo as escolas.
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Em
relação aos professores
Alta rotatividade, excesso de faltas, despreparo, desmotivação,
descompromisso, insegurança, deficiências, jornadas extenuantes,
baixos salários, são os principais pontos levantados
pela pesquisa, no que diz respeito aos professores. Estes reclamam,
ainda, que gastam muito tempo com problemas disciplinares, em detrimento
do trabalho pedagógico.
Os professores
ressentem-se, ainda, de não terem o seu trabalho valorizado
pelos alunos e seus pais. Precisam ter um piso salarial digno, uma
jornada de trabalho compatível e uma política de formação/capacitação
em serviço, que lhes possibilite acessar os recursos mais diversos
para desenvolverem seu trabalho, com sucesso.
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Em
relação ao Sistema Educacional
A pesquisa aponta para a revisão urgente da progressão
continuada (sistema que não prevê retenção
por falta de aproveitamento). Sem poder ser viabilizada, por falta
de condições (espaço físico, infra-estrutura,
treinamentos, classes numerosas), a progressão continuada é
tida como promoção automática. Isso desagrada
a todos, alunos, pais e professores. Não há boa perspectiva
de futuro sem o real progresso dos alunos.
Deve haver a instalação
e o oferecimento de projetos extra-classe, multi-curriculares e inter-disciplinares
(nos finais de semana), para toda a comunidade escolar, com a participação
de profissionais especializados e remunerados. Esses projetos constariam
de lazer orientado, esportes e atividades culturais múltiplas
(teatro, cinema, oficina de pintura, leitura e interpretação
de histórias). Essa prática melhoraria o relacionamento
entre escola e comunidade, além de tornar a escola mais atrativa.
O Sistema tem
que repensar a questão do policiamento preventivo. As escolas
que possuíam o policiamento ostensivo feminino registraram
uma queda nas ocorrências e na presença de traficantes
e marginais. Suspenso o policiamento, houve um retorno assustador
das ocorrências. O governo precisa se conscientizar de que a
Escola é o referencial, muitas vezes único, de esperança,
apoio e ocupação na vida de uma criança ou adolescente.
Para muitos alunos, ela é o único espaço de acesso
ao saber universal e sistematizado, necessário ao desenvolvimento
de uma identidade social, cultural e humana que espelha a vida do
cotidiano, visando o futuro pleno do cidadão. E ali, na escola,
esse cidadão precisa ter segurança.
O Sistema deve,
ainda, entender que os alunos precisam freqüentar uma escola
que fique dentro de sua comunidade. Quando são oriundos de
outra comunidade, os alunos não sentem a escola como sua e
muitas vezes são vistos como invasores. A distância,
também, pode impossibilitar a presença dos pais nas
reuniões e outras atividades escolares.
As escolas que
atendem apenas a sua comunidade e que realizam um trabalho de aproximação,
minimizam e diminuem os impactos da violência (tanto patrimonial
quanto pessoal).
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Conclusão
Da pesquisa realizada junto às escolas, pode-se concluir que:
a maioria das
escolas sofre ações de violência, seja com relação
ao patrimônio, seja com relação ao seu pessoal.
nas escolas
que atendem apenas alunos de 1ª a 4ª séries, os problemas
são menos graves, mas também ali as drogas já
estão chegando, o que é preocupante.
as escolas,
de um modo geral, estão muito preocupadas com o fato de não
conseguirem desenvolver todo o seu potencial criativo (para uma educação
de qualidade), devido à falta de infra-estrutura (verbas, quadras
esportivas, salas ambiente, laboratórios, inclusive de informática,
materiais didáticos), falta de uma grade curricular adequada,
de professores com dedicação exclusiva (bem preparados,
capacitados e compromissados) e de um calendário escolar adequado,
flexível, que favoreça o desenvolvimento das atividades
curriculares.
em algumas escolas,
o Projeto Pedagógico chega a tornar-se inviável, em
decorrência do alto índice de violência e indisciplina.
a desagregação
familiar e o desemprego interferem seriamente na educação,
pois geram violência no interior da família.
crianças
ociosas tendem a ter mais problemas com drogas, daí a importância
da criação de Centros Comunitários, para atividades
culturais e esportivas, num trabalho conjunto com a escola.
são poucos
os jovens que demonstram crença num futuro melhor, via educação.
Por isso, a escola deve ser mais atraente, mais interessante para
conseguir a participação desses jovens e fazê-los
vislumbrar uma vida melhor, pela educação. Esse trabalho,
no entanto, tem de ser não apenas da escola, mas também
da comunidade e da sociedade.
o Estatuto da
Criança e do Adolescente precisa ser revisto. Os Juízes,
os Promotores de Justiça e os Conselhos Tutelares têm
que desenvolver um trabalho conjunto com a escola. Se o aluno infrator
não tem como conviver com o ambiente escolar, é preciso
afastá-lo, para que os outros alunos não sejam prejudicados.
Esse aluno deveria ser encaminhado para ´"Centros de Reeducação".
deve-se criar
campanhas envolvendo toda a mídia, as famílias, as escolas,
as entidades de classe e a sociedade em geral, para valorizar a educação
escolar, a ética, os direitos, os deveres, a responsabilidade
e o compromisso no convívio social.
algumas escolas
defendem a Educação Física e o Ensino da Arte
(música, teatro, trabalhos manuais, etc..) como meios de conseguir
a participação dos alunos e da comunidade.
a recuperação
nas férias constitui uma aberração didática
pois, sem nenhum planejamento, alunos vão encontrar docentes
que nunca viram, para trabalhar aquilo que nunca aprenderam (ao longo
do ano letivo), num espaço de tempo que nunca foi o suficiente
(cerca de vinte dias úteis).
o módulo
de funcionários, ou seja, a relação entre o número
de funcionários e o de alunos/classes, está defasado
e descaracterizado. Todas as escolas, independentemente do número
de classes e/ou alunos, deveriam ter vice-diretor, professor-coordenador
e funcionários concursados.
quanto maior
o número de alunos adolescentes, maior é o índice
de violência. O Estado deve repensar seus projetos: as escolas
não podem ser grandes, as classes não podem ser numerosas.
deve-se investir
na criação, manutenção e expansão
dos cursos profissionalizantes, sem detrimento da formação
geral dos alunos.
A escola é
do povo e para o povo. Deveria haver uma campanha publicitária
visando à conscientização de que educação
é investimento para a VIDA. Os pais precisam assumir seus filhos,
assim como a comunidade deve "assumir" a ESCOLA, e a sociedade,
a EDUCAÇÃO.
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