Fundação Torino desenvolve Projeto Educacional em bairro pobre de Nova Lima

Em menos de um mês, mais que dobra a procura de crianças carentes por aulas de reforço dadas por alunos de escola internacional de Belo Horizonte (MG)

No domingo, depois de ajudar a mãe a arrumar a casa, Jeane Cardoso Maia, 8 anos, separa os cadernos para a aula do dia seguinte na única escola municipal do bairro Jardim Canadá, um dos mais pobres de Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG). Mas sua atenção está um pouco mais distante, na tarde de terça-feira, quando os estudantes da Fundação Torino chegam para dar aulas de reforço. "Fico doidinha para vir", afirma não sem antes abrir um largo sorriso. Jeane é uma das 50 crianças do bairro atendidas pelo projeto piloto de ação social desenvolvido desde o início do ano pelos alunos da escola internacional ligada ao Grupo Fiat.

Pés descalços, sujos pelo pó de minério e terra das muitas ruas sem calçamento do bairro (quase 90%, segundo a administração regional), ela ouve atentamente as explicações de Anna Teresa da Motta, 18 anos, aluna do 4o Liceo - último ano do ensino médio -, que escreve uma operação matemática em seu caderno. Jeane observa, pensa um pouco, resolve a conta e recebe o aplauso de sua orientadora. "A carência dessas crianças é tão grande. Elas realmente querem ter aulas, estão interessadas e correndo atrás", orgulha-se Anna, que tem oportunidade de compartilhar experiências de uma vida acadêmica que a tornou fluente em alemão, italiano, inglês e espanhol. Perfil não muito diferente dos vários outros estudantes da Fundação Torino que atuam no Jardim Canadá.

O projeto de reforço escolar começou perto do Natal de 2004, quando os alunos da escola internacional sentiram a necessidade de um trabalho que fosse além da distribuição de cestas básicas ou ações unilaterais. A professora de história e filosofia, Lia Steindler, formatou a proposta, que foi encampada pela escola e conquistou uma verba do governo da Itália para desenvolvimento de projetos sociais e educacionais no exterior.

O primeiro passo foi ir até o bairro, que fica na divisa entre Nova Lima e Belo Horizonte, conversar com as famílias e com as crianças para saber suas necessidades. O Jardim Canadá existe há 40 anos e não tem rede de esgoto para as mais de 6.000 pessoas que lá vivem. Mesmo as indústrias, às margens da BR-040, têm de recorrer a fossas sanitárias. Existe apenas um posto de saúde e duas escolas públicas. Nas salas de aula, as crianças têm de concorrer com até 50 outros colegas pela atenção dos professores. Muito diferente do reforço escolar, que limita a três pessoas por orientador para garantir a qualidade do ensino.

Crescimento com a comunidade

Quando o trabalho começou, em fevereiro, havia em torno de 20 crianças de 7 a 16 anos que eram acompanhadas nas disciplinas de português, matemática, geografia, história e inglês por alunos dos últimos anos do ensino médio - tanto do liceo quanto dos cursos gerenciais de turismo e comercial oferecidos pela Fundação Torino. Os estudantes se organizam em grupos de oito estudantes que se revezam na tarefa e retornam ao bairro pelo menos uma vez por mês.
Mães e meninos foram conversando entre si, a novidade foi apresentada na igreja e levada por eles informalmente para o corredor da escola. Um mês depois, mais que dobrou o número de participantes. E as ações pedagógicas se multiplicaram, como a criação de uma oficina de artes, que ensina a fazer pinturas, dobraduras e bijuterias.

A coordenadora Lia Steindler busca a evolução do trabalho em parceria com os moradores e prepara um programa de educação sexual para os jovens da comunidade em parceria com o posto de saúde local. "A meta é juntar forças com a comunidade para garantir o prosseguimento ao projeto", defende.

Um forte defensor da continuidade do projeto é Raul Cristian Gomes Silva, 9 anos, aluno da escola municipal do bairro. Ele freqüenta o projeto desde o início por iniciativa própria. "Fiquei sabendo pela vizinha e falei com minha mãe

A receita para a boa receptividade do projeto na comunidade é a mistura da boa formação acadêmica dos preceptores - como Luigi Ragni Neto, 18, que ajuda adolescentes do Jardim Canadá com estudo do inglês e prestará exames para a faculdade de Engenharia de Informática e Informação em Bérgamo, Itália - com altas doses de atenção e carinho. As crianças chegam a "adotar" os orientadores preferidos e acompanham o rodízio com mais atenção que dedicariam ao programa de TV preferido. "Todos os estudantes da Fundação Torino são legais, mas eu adoro a Gabriela. Ela brincou com a gente e conversou. E ela vai vir na próxima terça-feira", comemora Jeane, antes de recolher seu material, despedir-se com um beijo da professora Lia e voltar caminhando para casa.

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