Escola espalha rimas e versos além de seus muros

A poesia e a literatura para a grande maioria dos brasileiros são ilustres desconhecidas. Seus autores ganham alguma notoriedade em momentos de premiação e, mesmo assim, somente para uma pequena faixa da população. A Escola da Vila, situada na zona oeste de São Paulo, no entanto, sempre carregou essa bandeira e, ano após ano, colhe os frutos de seu trabalho, não só com seus alunos, mas também na comunidade. Sua batalha incessante nesse sentido inclui várias ações como festivais de poesia, saraus, rodas de leituras com funcionários, alunos e pais, parcerias com ONGs, creches, asilos e escolas públicas.

Ex-montadora de equipamentos eletrônicos, Ederalda Andrade da Silva, de 42 anos, é um bom exemplo dos esforços dessa instituição. Contratada para trabalhar na limpeza da escola, ela é uma das beneficiadas pelos projetos desenvolvidos pela Vila na sua luta constante para a formação de bons leitores. "Encoste o balde e venha ouvir essa história!". No início, Ederalda estranhava o chamado da coordenadora da Sala de Leitura da Escola da Vila, Célia Nascimento. "Nunca os 'grandes' me chamaram pra nada. Quando comecei a trabalhar nessa escola, isso mudou. A Celinha chama a gente para ouvir histórias, para atuar como atriz e até para saber coisas novas. Foi lá que eu soube sobre a importância da economia de água que corre risco de acabar um dia", conta a faxineira.

A iniciativa rende frutos ainda no Jardim Fabiana, no Embu, onde Ederalda mora. "Sempre peço às moças da biblioteca que emprestem livros para meu filho de doze anos e uns títulos infantis para eu contar histórias para as crianças do meu bairro. Só que tento imitar a Celinha, que é uma contadora de histórias maravilhosa, e não sei se consigo muito bem. Mas, ponho uma bacia de pipoca no meio da roda e me aventuro com a criançada", diz Ederalda.

Para a Escola da Vila, essa é uma grande vitória. O caso da Ederalda é um dos frutos do Vila Leitura, projeto parceiro do Viva Leitura adotado pelo Brasil no ano Ibero-Americano de Leitura, comemorado em 21 países da Europa e das Américas em 2005. A ação atua em frentes que envolvem professores, funcionários, alunos voluntários em rodas de biblioteca, de história, em forma de dinâmicas (teatro, coral, poesia etc), ajudando-os a ampliar o repertório e conseqüentemente, a levar a idéia para casa, para seu bairro, e lá atuem com agentes multiplicadores.

Mas 2005 foi também o ano do esperado 6º. Festival de Poesia Fernando Pessoa, realizado bienalmente pela Escola da Vila. Com o apoio de lei de incentivo à cultura, esse evento colabora para a introdução da comunidade no mundo literário, com oficinas de poesia, saraus, mostras e concursos de produção própria. E, como sempre acontece em cada edição desse evento, que tem grande adesão total dos alunos, pais, professores e funcionários da escola, novos talentos foram revelados.

Olívia Serenza, de 14 anos, aluna da oitava série, conquistou o primeiro lugar em sua categoria com a poesia intitulada Agonia, cujo texto reproduzimos abaixo. Por que não pegar essa idéia e promover um festival desse tipo em sua escola?

Agonia
Sozinha no escuro,
Presa a um laço encarnado
Apenas prevê o sonho:
Eis o que resta.
Não sente, não ouve não fala
Te observa calada.

Olívia Serenza 8ª D

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