Fonte:
Agência Fapesp (Thiago Romero)
O
que nasce primeiro nas cidades brasileiras: os bairros ou as escolas? Segundo
Ismael Bravo, pesquisador do Laboratório de Gestão Educacional (Lage)
da Unicamp, são os bairros, apesar de se tratar de um equívoco.
"Normalmente os bairros, sobretudos os menos favorecidos, são
criados primeiro e, depois de alguns anos, entram em cena os aparelhos sociais,
como instituições de ensino, postos de saúde, saneamento
básico e transporte. Mas esse é um viés equivocado do planejamento
urbano no Brasil".
"Com isso, acaba sobrando para a escola a
tarefa de entender as características da sociedade que está precisando
de seu ensino, o que também nem sempre ocorre", afirmou o pesquisador.
Tendo
como estudo de caso 20 escolas da região metropolitana de Campinas, a pesquisa
faz uma análise demográfica e de geografia política dos movimentos
da população no território, de modo a chamar a atenção
dos gestores públicos, do ponto de vista do planejamento da educação,
para a diversidade das características e necessidades peculiares das populações
urbanas e rurais.
"Se não levarmos em conta a diversidade
em que determinada escola está inserida na hora de avaliar sua produtividade,
por exemplo, esse tipo de trabalho pode cair por terra. Atualmente, as pesquisas
de produtividade nas escolas públicas brasileiras nem sempre levam em conta
o perfil social, cultural e econômico dos pais e alunos que freqüentam
as unidades escolares", disse Bravo.
Segundo ele, na maior parte
das instituições de ensino públicas no país, o perfil
do aluno, que deve constar em seu projeto pedagógico, "é traçado
apenas pela visão do cotidiano escolar de professores e diretores, que,
invariavelmente, não residem na localidade onde a escola está inserida."
E quando a escola vai ao encontro das necessidades dos alunos e responsáveis,
ela passaria a fazer sentido para a comunidade pelo fato de poder elaborar seu
projeto pedagógico com base em uma realidade específica, aumentando
as possibilidades de reduzir índices de violência e de aproximação
dos alunos das aulas.
"Desse modo, as abordagens pedagógicas
em sala de aula passam a ter relação direta com o cotidiano dos
alunos, que deve ser considerado, também, pelo planejamento da educação
pública no Brasil, seja na hora de criar novas escolas ou na destinação
dos recursos", disse.
Outro
problema abordado por Ismael Bravo é que, uma vez que a legislação
brasileira classifica as escolas como rurais e urbanas, centenas delas perderam
suas identidades, não sendo nem urbanas, nem rurais.
"Com
o crescimento das metrópoles, nas últimas décadas surgiram
áreas de transição - um meio físico que se caracteriza
pela heterogeneidade de sua constituição por ter perdido características
homogêneas da cidade ou do campo", explicou.
De acordo com
o pesquisador, esse processo de ocupação heterogênea, além
do fato de que nichos de atividades rurais surgem nas metrópoles e vice-versa,
faz com que os alunos de uma determinada escola nem sempre sejam residentes no
município onde ela está instalada fisicamente.
"Com
isso, os recursos para a manutenção da escola, que vêm da
prefeitura do município, não atendem plenamente à população
da cidade. Um exemplo que analisei foi o de uma escola considerada rural, localizada
em Valinhos, mas que tem 60% dos alunos residindo na cidade de Campinas. Essa
escola acaba se descaracterizando internamente por atender a uma população
que não é de área rural", explicou.
17/12/2007