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Desnutridos
de ontem, obesos de hoje Texto extraído do Boletim Click Notícia de 20/01/05. Levado pela onda
(quase tsunami) que coloca a obesidade na ordem do dia - matéria
no NYT mostrando mulheres obesas em praias cariocas; Lei municipal
do Rio de Janeiro proibindo cantinas escolares de vender e anunciar
alimentos calóricos; reposicionamento mercadológico
do McDonald´s incluindo em seu cardápio saladas de frutas
e verduras frescas; e, conforme editorial da FSP de 15 de janeiro,
a preocupação assumida por uma das maiores fabricantes
de calóricos, a Kraft, quanto às suas campanhas publicitárias
- o psiquiatra Acioly Lacerda, especialista em análise de comprometimento
cerebral em portadores de Transtornos Compulsivos, incluindo a Compulsão
Alimentar, resolveu se aprofundar nos levantamentos do IBGE. Segundo ele, "analisando
os dados mais atentamente, o estudo de duas regiões brasileiras
(Nordeste e Sudeste) revela achados, no mínimo, surpreendentes.
Resumidamente, os principais resultados de tal levantamento foram:
(1) um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da obesidade
foi justamente o fato de o sujeito ter sido desnutrido na infância
ou adolescência; (2) comunidades nordestinas que vivem abaixo
da linha da pobreza (renda inferior a um dólar por dia) apresentaram
um aumento do número de pessoas sobrepeso (IMC>25) da ordem
de 17% no espaço de duas décadas; (3) o aumento do número
de obesos foi muito maior (mais que o dobro) nas populações
pobres do que entre os que têm maior renda; (4) o subgrupo que
apresentou maior aumento no número de obesos foi o de mulheres
de baixa renda (em 20 anos, o índice saltou de 6,6% para 15%,
um aumento de 130%!); (5) a relação entre obesidade
e renda assume comportamentos diferentes quando comparados homens
e mulheres: as mulheres, quanto mais pobres, mais obesas; entre os
homens, quanto maior a renda, maior o percentual de obesos." Acioly Lacerda
enfatiza que pesquisas recentes são unânimes em definir
a obesidade como um problema de saúde multifatorial. "Fatores
genéticos, hormonais, comportamentais e sócio-culturais,
dentre outros, costumam ter influência decisiva no desenvolvimento
da obesidade. É senso comum que, por mais que alguém
tenha 'tendência' para engordar, este será desnutrido
se não tiver acesso a uma quantidade mínima de calorias
diariamente. Porém, o fato de alguém ter sido desnutrido
representar um dos principais fatores de risco para obesidade - dado
também descrito por estudos em outros países - parece
contra-intuitivo". Para o psiquiatra
a explicação mais plausível para este fenômeno
vem de estudos fisiológicos, que identificaram uma marcante
mudança no metabolismo de pessoas que um dia foram desnutridas.
"A desnutrição provoca alterações
em todos os sistemas orgânicos com um objetivo muito claro:
economizar energia e manter um baixo metabolismo. Quando dispõem
de um maior acesso a alimentos, os ex-desnutridos têm três
grandes problemas: (1) por conta do baixo metabolismo que o seu organismo
foi obrigado a 'aprender', tendem a aumentar reservas de gordura muito
mais do que de proteínas, por exemplo; (2) de uma forma geral,
a gordura é um dos alimentos mais baratos; (3) a gordura é
o tipo de alimento que gera mais saciedade, por diferentes motivos,
entre eles pelo fato de ter um elevado teor calórico e, portanto,
ser mais 'eficaz' em satisfazer os circuitos cerebrais de recompensa,
grandes vilões nos chamados comedores compulsivos." Após análise
minuciosa do estudo do IBGE, o psiquiatra argumenta que, mais uma
vez, os mais prejudicados serão os menos favorecidos. "A
obesidade, na condição de importante problema de saúde
pública que tem assumido no nosso país, tem sido sistematicamente
negligenciada. E, por mais paradoxal que possa ser, a população
mais carente é a maior vítima, invariavelmente. É
interessante notar que, quando 'ser gordinho' era sinônimo de
saúde, as classes mais favorecidas 'incorporavam' este perfil
nutricional; a partir do momento em que diversos estudos atestaram
os males associados à obesidade, tal perfil foi rapidamente
'repassado' para os menos favorecidos."
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