O vai e vem da balança

Fonte: Circe Bonatelli - Informativo Espaço Aberto, da Universidade de São Paulo.

Obesidade se cuida com a mudança de estilo de vida. É uma alteração para sempre. Embora seja essa a visão dos especialistas no assunto, a grande maioria das pessoas obesas não consegue encarar o tratamento desse modo. O resultado é que, depois da perda de peso, os indivíduos não se controlam e voltam a engordar. Dietas, medicamentos, cirurgia, e nenhum outro método é capaz de garantir o emagrecimento definitivo quando não há uma transformação dos hábitos alimentares.

A área da saúde encara a obesidade como uma questão multifatorial, ou seja, relacionada a vários fatores. Por isso, o ideal é que a abordagem médica procure um tratamento capaz de auxiliar o paciente em diferentes disciplinas. A grande maioria dos indivíduos é tratada apenas em seus aspectos orgânicos, quando existe também a importância dos fatores sociais e psicológicos.

O professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP Arthur Kaufman afirma que: "Para o tratamento ser eficaz, é necessário também considerar a fome psicológica, a compulsão de comer e o estilo de vida". O motivo para essa afirmação é o alto nível de reincidência da obesidade em pessoas que já perderam peso em algum momento, mas não conseguiram manter a forma.

Tânia Oliveira Barudel, técnica em recursos humanos no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, o IAG, acabou cedendo perante os nervosos do cotidiano. Ela conta que já foi bailarina, mas quando deixou essa carreira, acabou engordando. Depois disso, fez um regime a partir das orientações de revistas femininas e chegou a perder oito quilos com dieta balanceada e exercícios. "Comer menos e gastar mais energias, sem cair em tentações como doces", diz. Porém, as tentativas de parar de fumar e as preocupações do dia-a-dia colocaram a readaptação alimentar em segundo plano e Tânia ganhou todos os quilos de volta.

A vida moderna nos traz uma oferta enorme de guloseimas deliciosas e calóricas no lugar de frutas e alimentos naturais que eram de costume há anos. O tamanho das porções aumentou e as atividades físicas diminuíram. Há menos tempo para praticar esportes e o próprio ambiente de trabalho envolve menos esforço físico. "Hoje em dia, quem está tentando emagrecer tem que remar contra a maré, pois a sociedade empurra mais comida e menos exercícios", aponta Anete Hannud Abdo, endocrinologista e intergrante da equipe do Programa de Atendimento ao Obeso, o Prato, do Hospital das Clínicas.

Ela conta que o serviço do HC oferece acompanhamento psicólogo e até aulas de dança do ventre, que servem para estimular o lado feminino das mulheres com auto-estima baixa pelo excesso de peso. No entanto, Anete deixa claro que esses métodos são apenas um complemento. O essencial é que o paciente se esforce para selecionar melhor os itens que entram no seu cardápio. "O difícil mesmo é você manter aquilo que já perdeu", confirma Nair Araújo, segurança do Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC. Ela chegou a consultar uma nutricionista e emagreceu nove quilos sem medicamentos, mas não conseguiu se habituar com o volume menor de alimentos. "Quem não gosta de comer?"

O Centro de Práticas Esportivas da USP, Cepeusp, oferece aulas gratuitas específicas para obesos. São dois encontros semanais que procuram conciliar atividades físicas adaptadas e orientação nutricional. Cláudia Cezar é coordenadora desse programa e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Obesidade, Neobe. Na sua visão, as aulas ajudam bastante, mas a pessoa precisa estar à vontade e disposta para se dedicar ao regime e mudança de hábitos. "Cada um tem seu momento. Tem que ser algo pessoal."

Segundo Cláudia, também é importante se livrar da cultura imediatista que não tolera resultados a longo prazo e ainda busca fórmulas mágicas para emagrecer em um mês. Esse é um grande causador do "efeito-sanfona", pois o emagrecimento acontece através de inibidores de apetite ou regimes extremos. No entanto, como o organismo não foi disciplinado, ele volta a engordar em pouco tempo. Nas aulas para obesos no Cepeusp, a professora Carolina Magalhães evita manter perspectivas imediatistas como essa e deixa claro logo na primeira aula: "Ninguém vai comprar roupa três vezes menor para o Natal". Como não é isso que a maioria dos alunos espera, partem atrás de algo mais rápido.

SERVIÇOS
Prato, Programa de Atendimento ao Obeso
O programa é aberto a mulheres com idade entre 20 e 50 anos, ensino fundamental completo, índice de massa corporal (IMC) entre 30 e 39,9 kg/m², sem distúrbios psiquiátricos ou uso de medicações que tenham qualquer interferência no peso. Mais informações no site www.hcnet.usp.br/ipq/prato ou pelo telefone (11) 3069.6974.

O Obeso no Prato
O livro é um lançamento de toda a equipe do Prato e tem a edição realizada pelo coordenador do programa, Arthur Kaufman. A obra, composta por vários capítulos, constrói uma visão multidisciplinar sobre a obesidade e traz o resultado obtido em mais de dez anos de pesquisas e atendimentos do grupo. O trabalho é dedicado a profissionais que lidam com obesos e a demais interessados no assunto. Vendas pelo telefone 0800-770-5669.

Cepeusp, Centro de Práticas Esportivas da USP
A cada semestre o Cepeusp oferece cursos regulares destinados ao público infanto-juvenil, adulto, terceira idade e alunos especiais, todos com ou sem vínculo com a USP. Entre as modalidades, existem aulas adaptadas para obesos. Outras informações no site www.usp.br/cepe ou pelo telefone (11) 3091-3361.

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