Transtornos alimentares: onde estão as raízes destas doenças?

* Fonte: CITEN

"Apesar da dimensão do problema, ainda é difícil fazer o diagnóstico acurado das várias formas do comer patológico. Mais difícil ainda é 'classificar as pacientes' que apresentam um ou outro distúrbio alimentar, pois muitas delas apresentam sintomas que ora lembram anorexia, ora bulimia, o que causa dificuldades para que a equipe multidisciplinar de atendimento a esses pacientes faça uma distinção clara entre esses transtornos. Muitos casos de transtornos alimentares não obedecem aos critérios diagnósticos das formas clássicas destas patologias, mas já apresentam desvios da normalidade do hábito de comer", afirma a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Citen.

Segundo a médica, é importante esclarecer que os transtornos alimentares, apesar de ainda não terem causas definidas, não surgem voluntariamente. Nos casos mais graves como o da anorexia nervosa, "ouvimos repetidamente das pacientes que elas não se interessam em 'parecer' modelos e que se sentem verdadeiramente muito gordas. Isso nos leva a crer que outros fatores, e não apenas os estereótipos de beleza, estão envolvidos na gênese dos transtornos alimentares. Esta origem multifatorial deve ser esclarecida para facilitar o diagnóstico e o tratamento destas doenças".

Fatores sócio-culturais
Vivemos em uma sociedade que supervaloriza a magreza. As pressões sociais para que as pessoas, principalmente as mulheres, se enquadrem num modelo X ou Y de beleza geram preocupações extremadas com a imagem corporal.

A exposição aos padrões rigorosos da sociedade moderna, a internalização do ideal de magreza e a insatisfação gerada pela imagem corporal real em relação àquela idealizada podem levar a padrões comportamentais alimentares com restrições extremas, o que propicia o aparecimento da compulsão alimentar e da purgação.

Apesar das influências desses padrões culturais serem generalizadas, somente algumas mulheres desenvolvem os transtornos alimentares e isso provavelmente está ligado a outros fatores que podem aumentar a susceptibilidade à doença, como: pressões sociais (exposição à mídia, pressão e constrangimentos entre pares, exigência de algumas profissões), personalidades perfeccionistas e ansiosas, impulsividade, sobrepeso ou obesidade, que fazem com que o paciente 'se enquadre' num padrão de peso muito diferente do ideal.

Homens com transtornos alimentares
Os levantamentos mundiais sobre transtornos alimentares revelam uma prevalência significativamente maior destas doenças no sexo feminino, principalmente no que se refere à anorexia nervosa e à bulimia. "Quando observamos os transtornos alimentares relacionados às demais Síndromes Compulsivas, o quadro muda muito, pois passamos a encontrar uma estatística que revela uma alta incidência do problema no sexo masculino", afirma Ellen Paiva.

Segundo a diretora do Citen, este quadro pode ainda ser subestimado pela relativa dificuldade de se obter relatos verdadeiros sobre a presença dos transtornos alimentares nos homens, principalmente o da ocorrência de episódios purgativos. "Eles geralmente usam diferentes métodos compensatórios, como exercícios físicos intensos e o uso de laxantes. E depois, alegam que o objetivo deste comportamento é tentar aumentar a massa muscular ou perder peso", explica a médica.

Fatores genéticos
As pesquisas no campo genético estão bem posicionadas para identificar e explicar as diferentes evoluções de cada grupo exposto ao risco. "Essa explicação relaciona as influências comportamentais às predisposições genéticas. Por exemplo: uma pessoa com um determinado gene reage com desconforto e intolerância a uma dieta restritiva, rejeitando a continuidade da mesma por não se sentir bem. Outra, com um gene diferente, reage à mesma restrição dietética de modo favorável, com sensação de controle da situação e do peso corporal e com redução da ansiedade por se sentir socialmente adequada", explica Ellen.

As "dietas da moda"
A exposição de meninas susceptíveis aos transtornos alimentares às "dietas da moda" está claramente relacionada ao desenvolvimento de casos do comer patológico. "Isso provavelmente se relaciona ao fato dessas dietas apresentarem em comum grande restrição calórica, monotonia de refeições e perdas de peso fantasiosas, a curto prazo", afirma Amanda Epifanio, nutricionista que integra o corpo clínico do Citen.

Todas essas características transformam essas dietas em preâmbulos do jejum prolongado e esse é o caminho mais curto para os episódios compulsivos, os vômitos e as várias outras atitudes purgativas que caracterizam a bulimia.

Preconceito e banalização
O contexto cultural da sociedade moderna simplifica os transtornos alimentares, caracterizando-os como reações histéricas e voluntárias de vaidade ou como uma busca desenfreada por um ideal de beleza. "Esse grande equívoco dificulta as pesquisas científicas que podem esclarecer a raiz destes problemas, banaliza a gravidade destas doenças e compromete o convívio social destas pacientes. Elas simplesmente sonegam informações importantes, que podem salvar suas vidas, uma vez que os transtornos alimentares têm taxas de morbidade e mortalidade nada desprezíveis", afirma a endocrinologista Ellen Paiva.

* CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional
Telefone: (11) 5579 1561/5904 3273
www.citen.com.br


23/8/2007

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