*Fonte:
Jornal da Unicamp (Manoel Alves Filho)
Consumo dos alimentos proporciona dose diária de flúor que ajuda
no controle da manifestação da doença.
A
dobradinha formada pelo arroz e feijão, quem diria, faz mais do que cumprir
um importante papel na dieta do brasileiro. Além de fornecer nutrientes
como carboidratos, proteínas, cálcio e vitaminas, a composição
também apresenta um significativo potencial de prevenção
da cárie dental. A constatação é de uma pesquisa inédita
de iniciação científica desenvolvida pelo então estudante
de Odontologia Renato Casarin, sob a orientação do professor Jaime
Aparecido Cury, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Unicamp. Segundo
o estudo, o consumo dos dois alimentos proporciona uma dose diária de flúor
que pode ajudar no controle da manifestação da doença. "Ao
mesmo tempo, essa mesma dose fica abaixo do limite considerado de risco para a
ocorrência da fluorose, outro problema que afeta os dentes", afirmam
os autores do trabalho.
Estudo foi feito em creche
de Piracicaba
A pesquisa foi realizada em Piracicaba, cidade do
Interior de São Paulo que utiliza o flúor no processo de tratamento
da água fornecida à população. Conforme o pesquisador,
a quantidade empregada da substância equivale a 0,7 parte por milhão
(ppm), considerada ideal pelos especialistas. O desafio que o pesquisador se impôs
foi determinar quanto de flúor o arroz e o feijão preparados com
essa água forneciam ao organismo humano.
O passo seguinte foi recorrer
a uma creche instalada no município, onde a combinação está
presente no cardápio diariamente. Conforme Casarin, foram selecionadas
27 crianças de 20 a 30 meses, para quantificar o consumo médio diário
do arroz com feijão. Sabendo a quantidade de arroz e feijão ingeridos
e a concentração de flúor nesses alimentos, foi possível
estimar a quantidade de flúor que estaria sendo ingerido diariamente pelas
crianças. "Nós constatamos que os alimentos feitos com água
fluoretada forneceriam 300% a mais de flúor às crianças,
em razão de a substância permanecer incorporada ao arroz e ao feijão
durante o preparo desses alimentos", afirma o dentista.
De modo geral,
acrescenta o pesquisador, a dose diária de flúor fornecida pelos
alimentos preparados com água fluoretada correspondeu a 30% do limite máximo
recomendável. Esse valor, segundo Casarin, além de não oferecer
risco de surgimento de fluorose, caracterizada pelo excesso de flúor, representa
um importante potencial de prevenção da cárie, dado que o
flúor consumido na alimentação é absorvido pelo organismo
e retorna à cavidade oral pela saliva.
Alimentos
perdem espaço no cardápio do brasileiro
Além
de consumidor, o Brasil é um grande produtor de arroz e feijão.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam
que o país colheu em 2006 cerca de 13 milhões de toneladas do primeiro
grão e 2,7 milhões de toneladas do segundo. A despeito desse resultado,
o brasileiro tem reduzido progressivamente a ingestão dos dois alimentos.
Conforme a Pesquisa Nacional de Orçamentos Familiares (POF) de 2003, também
do IBGE, o consumo domiciliar per capita de arroz naquele ano foi de 31,6 quilos,
enquanto que o de feijão foi de 12,4 quilos. Em comparação
com os índices apurados em 1975, esse consumo apresenta quedas de 46% e
37%, respectivamente.
Preocupado com essa tendência, o governo federal,
com o apoio da Embrapa Arroz e Feijão, lançou uma campanha intitulada
"Arroz e Feijão, o par perfeito do Brasil". O objetivo é
tentar reverter a queda de consumo dos dois produtos. Uma das pretensões
da iniciativa é, também, mudar a percepção das pessoas
quanto aos valores nutricionais dos alimentos.
Sobre a importância
cultural da dobradinha formada pelo arroz e o feijão, o antropólogo
Roberto DaMatta nos informa que ela pode ser considerada uma das expressões
da sociedade brasileira. Combina sólido com líquido, negro com branco.
Ou seja, trata-se de um prato de síntese, representativo de um estilo brasileiro
de se alimentar. É também uma representação da culinária
relacional, que por sua vez evidencia uma sociedade igualmente relacional.
18/10/2007