Uma outra vista do trópico

Agência O Globo

Leia MaisSocialismo pode virar turismo
Leia MaisTradição do bolero e da rumba continua viva na ilha
Leia MaisCuba ganha fácil
Leia MaisCultos afros reafirmam parentesco de Brasil e Cuba
Leia MaisBuena Vista Presents Ibrahim Ferrer
Leia MaisCongresso de Pedagogia 2001 em Havana - Confira todos os detalhes na Seção PROGRAME-SE

CubaNos seis dias em que esteve em Havana, no fim do ano passado, Caetano foi recebido com carinho pelos cubanos. Encontrou-se com mestres da Nueva Trova, como os cantores e compositores Pablo Milanés e Silvio Rodriguez, conheceu velhos músicos de rumba e bolero, passeou pelas ruelas de Havana Velha, relembrou seus sonhos de revolução e viu uma Havana melhor.

“Fui convidado várias vezes e por duas ocasiões quase cheguei a ir, mas não sei direito o que acontecia”, diz Caetano Veloso. “Tinha medo de me sentir angustiado por alguma razão. A questão do socialismo, que no tempo do tropicalismo já era problemática para a minha cabeça, tinha ficado muito mais. Eu tinha muita dificuldade de dialogar sobre aquele problema, mesmo com as pessoas com quem eu iria. Mas também tinha medo de avião naquela época, e hoje já não tenho mais”, afirma.

“O socialismo pode virar turismo

”Caetano relembra seus sonhos de revolução, repudia totalitarismo mas vê uma Havana melhor. Bolero gravado em Fina estampa, Contigo en la distancia é uma prova da modernidade da música cubana. Caetano pôde conhecer e assistir ao compositor dessa pérola, César Portillo de La Cruz. Beirando os 80 anos, ele canta três vezes por semana na boate Gato Tuerto.

“Tocando, Portillo de La Cruz já faz as harmonias da bossa nova, mas vem de muito antes, ele faz aqueles boleros desde os anos 40”, diz Caetano, explicando que esse tipo de bolero é chamado de “filin”, corruptela de feeling. “É o bolero moderno, uma coisa como a bossa nova, mas antes da nossa, com mais balada e harmonia jazzística.”

Tradição do bolero e da rumba continua viva na ilha

Essa rica tradição, influente no mundo todo dos anos 30 aos 60, andava um pouco encoberta em Cuba a partir dos anos 70, em parte pela hegemonia da geração de cantores e compositores da Nueva Trova. Algo que estaria insinuado no filme de Wim Wenders, Buena Vista Social Club, que documenta o trabalho do guitarrista e produtor americano Ry Cooder com os veteranos músicos de estilos como o son, rumba e bolero. Caetano não chega a concordar com essa interpretação.

“Não morei em Cuba para poder afirmar isso, essa é uma coisa bem mais complexa”, responde. “Silvio (Rodriguez) me disse, citando uns três ou quatro nomes que aparecem em Buena Vista, que eles nunca pararam de fazer música em Cuba. Ele não falou isso como um desmentido, mas como uma lembrança, e Silvio viu o filme. Não se pode dizer que aquele tipo de música foi reprimido porque continuou se desenvolvendo e hoje tem os Van Van, Irakere, um milhão de coisas no gênero”.

Ainda lembrando de Buena Vista Social Club, disco e filme que reaqueceram no mundo todo o interesse pela música cubana, Caetano diz que mais do que viu na tela, tinha gostado mesmo do show do grupo ao vivo no Rio, no Canecão, quando conheceu músicos como Compay Segundo, Rubens Gonzalez, Ibrahim Ferrer.“E também, vendo Havana agora, a cidade me pareceu em melhor estado do que o filme mostra”, comenta. “É uma cidade linda e mesmo com partes deterioradas tem muita coisa em bom estado, como Cubanacan.”

Cuba ganha fácil

Mais crítica que o marido, Paula Lavigne interrompe para dizer que viu Cuba perto de se transformar numa “Disney socialista”:
“Em breve vai ter gente fantasiada de Fidel, fumando charuto e posando para fotografia igual Mickey”.

“Paulinha fez essa piada do Disney do socialismo, mas não é preciso ser muito cínico para considerar que o socialismo também constitui uma espécie de atração turística”, retruca Caetano. “Não sei se manterão o socialismo por muito tempo, mas por enquanto existe. E não se sabe que caminhos o mundo vai tomar, essas coisas não são simples como os liberais procuram dizer. São bem mais complicadas”.

Sobre a difícil situação da Cuba de hoje, Caetano acha que deve ser relativizada:
“No aeroporto de Cancún, encontramos um empresário espanhol que disse algo interessante, da injustiça em comparar Cuba com os Estados Unidos, a Alemanha, Holanda”, conta. “Cuba deve ser comparada comos outros países da região, Jamaica, Haiti, República Dominicana, e aí Cuba sai ganhando disparado”.

Mesmo quando, em 1968, Caetano e Gil foram presos pelos militares e convidados a seguir para o exílio, os tropicalistas já não se pautavam pela cartilha da esquerda ortodoxa. Mas como Caetano lembra agora, as referências à ilha caribenha no disco-manifesto Tropicália eram óbvias.

“Tropicália tem Três caravelas, canção cubana que canto em espanhol e Gil a versão em português (de João de Barro), o que dá uma ironia. A letra em português traz a história para o Brasil, foi Emilinha Borba que gravou. E a letra original é a descoberta da América que se dá na região de Cuba. A gente via a revolução cubana como uma miragem de esperança, enquanto o Brasil estava sob uma ditadura de direita”, conta. E tem Soy loco por ti, América, homenagem a Che Guevara.

Mas a ligação com Cuba é muito anterior à revolução. Algo que em 1983, na letra de Quero ir a Cuba, Caetano sintetizou:
“Desde Célia Cruz, cuando yo era un niño de Jesus / e a revolução / que também tocou meu coração”: “De uma certa forma essas coisas permanecem na minha cabeça nessa ordem”, confirma. “Cuba era uma referência através das canções que eu escutava menino. E a revolução pareceu muito mais interessante justamente porque era em Cuba. Não seria a mesma coisa se fosse no Chile, embora o Chile esteja muito mais próximo do Brasil. Mas, culturalmente, Cuba tem mais a ver com a gente. A força da música de Cuba só tem paralelo com a do Brasil e a dos Estados Unidos. Todo mundo acha isso, inclusive os cubanos”.

Cultos afros reafirmam parentesco de Brasil e Cuba

O trato com os cubanos, músicos e intelectuais ou o povo nas ruas, foi caloroso. Caetano percebeu muitas afinidades com o Brasil, uma diversidade étnica que o lembrou das ruas de Salvador, com negros, brancos, mulatos misturados. Também confirmou o parentesco entre o candomblé e a santeria – a tradição religiosa africana que se desenvolveu no Caribe e que tem os mesmos orixás cultuados aqui:
“Xangô, Yemanjá, Oxum, Obatalá, que é Oxalá, mas que também na Bahia é conhecido como Obatalá, todo mundo de candomblé sabe. E Oxossi, que nós não encontramos na África, mas encontramos em Cuba”, diz. “E tem uma coisa próxima, festejar o dia 4 de dezembro, como na Bahia, só que na Bahia é o dia da Santa Bárbara. Então é ligado a Iansã, que é mulher de Xangô, o casal responsável pelos raios, trovões, e em Cuba celebram Xangô nesse mesmo dia”.

Buena Vista Social ClubBuena Vista Presents Ibrahim Ferrer

Buena Vista Social Club
Um verdadeiro clube da velha guarda da música cubana, que faz lembrar as antigas comissões de frente da nossa Mangueira, foi redescoberto pelo músico americano Ry Cooder e lançado mundial-mente pelo excelente filme documentário de Wim Wenders, o “Buena Vista Social Club”.

Com efeito, o bisavô Ibrahim Ferrere sua história muito e sua história muito fazem lembrar o nosso Cartola, mitológico compositor que foi um dia “descoberto”, vivendo de lavar carros, para só então, já de cabelos brancos, gravar seu primeiro LP que logo alcançou o sucesso. O cantor cubano que alcançara êxito no tempo dos cassinos, anteriores à revolução cubana, trabalhava como engraxate em 1997 no centro de Havana-Velha. Lançado mundial-mente, já vendeu 2 milhões de cópias de um CD considerado dos melhores de 1999. Compara-se a um Nat King Cole pela suavidade de suas interpretações.

Voltar para a Seção  Turismo
Leia MaisSol, praia, mar, navegar e muita gente bonita
Leia MaisVinhedos
Voltar para a Página Principal
Leia MaisEm São Francisco, a capital hippie
Leia MaisJoão Pessoa
Leia MaisCampos do Jordão
Leia MaisSydney
  Leia MaisAlbergues da Juventude Leia MaisAntes só do que mal acompanhado  
  Leia MaisSão Roque